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terça-feira, 11 de março de 2014

O passageiro

No primeiro feriado de 9 de julho que foi instituído em 1997 no Estado de São Paulo eu não dormi até tarde. Estava bem acordado quando alguém (não me lembro quem) chegou em casa dizendo que havia um boato de que um avião caíra em Suzano naquela manhã de sol. Fiquei espantando. Liguei o rádio no noticiário e logo ouvi o repórter informando que um corpo foi encontrado em uma plantação em Suzano. Eram fortes as suspeitas de que o homem morto, na verdade, tratava-se de um passageiro que fora ejetado de um avião da TAM, em pleno voo, durante uma explosão. Eu, estudante de jornalismo, com  20 anos de idade, fiquei hiper agitado com essa notícia. A todo custo queria ir ao local onde o corpo do passageiro foi localizado. 

A notícia se espalhou rapidamente pelo país. Isso porque em menos de um ano aquele era o segundo acidente envolvendo um avião da TAM. Em outubro de 1996, um Fokker 100 caiu no bairro Jabaquara, minutos após a decolagem: 99 morreram. Estive no local, na época. Estava há poucos meses na faculdade de jornalismo. Aproveitei a ida à capital para participar de um curso e, na volta, estiquei até a Zona Sul. Havia passado quatro dias do acidente. Jamais esquecerei o cenário de destruição na Rua Luis Orsini de Castro. Fiquei um tempo olhando a movimentação dos repórteres que ainda faziam plantão no local e tive mais certeza que era aquela a profissão que queria seguir.

Com a certeza no peito, no dia 9 de julho, do mesmo modo fiquei ouriçado para chegar ao local da queda do passageiro em Suzano. Eu nem tinha máquina fotográfica, mas o simples fato de ver de perto aquela ocorrência já me deixava satisfeito. Fui até a casa da minha avó, encontrei meu tio e o convenci de irmos até os arredores do Distrito de Palmeiras para tentar descobrir algo. Naquele momento a imprensa já dava como certa a versão. Era um passageiro que caiu do avião após uma explosão. A aeronave prosseguiu em seu voo até Congonhas onde pousou com segurança. Ninguém mais se feriu. Meu tio topou de me levar lá pros lados de Palmeiras, onde a imprensa dizia que o homem caiu.


Explosão abriu um buraco na fuselagem do avião. Foto: Google Imagens
A bordo do Fiat Uno prata seguimos na aventura pela Rodovia Índio Tibiriça. Eu não tinha muita noção onde era o ponto exato da ocorrência, mas fomos a esmo, sentido Distrito de Palmeiras. Por pouco tempo me senti um repórter indo para a pauta. A adrenalina do momento me dava uma sensação de satisfação. Não ia registrar nada do que estava acontecendo, mas sentia uma imensa vontade de estar envolvido naquilo. 

Fomos até Palmeiras, rodamos por uma estrada de terra e o tal sítio onde o corpo foi achado ficava cada vez mais longe. Resultado: não encontramos nada. Na volta cruzamos com um carro de reportagem do SBT. Até pensei em segui-lo, mas meu tio achou melhor irmos embora. 

Mais tarde os telejornais só falavam desse assunto. Me lembro perfeitamente que, por volta das 15h, um helicóptero branco e robusto, daqueles que têm até trem de pouso, desceu no terreno onde hoje está instalado um hipermercado e o shopping de Suzano. Desembarcou um dos diretores da TAM. De carro ele seguiu até o local do acidente.


Eu, que era leitor assíduo dos jornais da região e da capital, não via hora de chegar o dia seguinte para pegar os periódicos. O primeiro foi o Diário de Suzano. Me lembro da capa até hoje. Porém, um nome me chamou a atenção: Carlos Magno. Era o fotógrafo que fez as fotos do passageiro morto. Logo depois fiquei sabendo que ele foi o único fotógrafo do país a registrar a cena do acidente. As fotos dele rodaram o mundo e ilustraram as capa de quase todos os jornais e revistas do Brasil. Em poucos minutos virei fã do profissional. 

Eu conhecia os profissionais da imprensa regional somente por meio de créditos. São os nomes no cantinho das fotos e no topo das matérias. E pensava: Será que um dia me tornarei como eles. O sonho era ter o meu nome creditado em uma matéria. "Quem sabe um dia", pensava eu. Aliás, sonho de qualquer estudante amante do jornalismo.


Carlos Magno e o registro de sua história no livro Memórias
de Suzano.
O tempo passou e em 2008 acabei conhecendo Carlos Magno pessoalmente. Foi quando participei do projeto para escrever o livro Memórias de Suzano, com outras 3 amigas jornalistas. A obra tem um capítulo especial, escrito pela amiga Carla Fiamini, o qual relata o grande feito do fotógrafo suzanense. 


Desde então em todos os feriados estaduais em que se comemora a Revolução Constitucionalista de 32 a história do passageiro ejetado do avião me vem a cabeça. Às vezes me pego olhando para o céu em sincronia com o ruído agudo de um jato qualquer. E sempre vou acompanhando o movimento da aeronave até ela desaparecer do meu campo de visão. E quase sempre durante essas observações a tal história me vem à cabeça. "Como ele [passageiro] foi cair justo em Suzano".


quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Sem saída

Meu carro não tem ar condicionado. Então conto apenas com a abertura das janelas. O ar circula enquanto o veículo desliza sobre o escaldante asfalto dos dias quentes deste janeirão de 2014. Sabe aquele horizonte de piche derretido? A máquina sofre, o ponteiro da temperatura logo alcança o máximo e a ventoinha se desdobra. 

Depois do almoço os termômetros tinham acabado de passar pelos 30. O trânsito seguia normal e, no céu, as primeiras cumulus nimbos já estavam estacionadas. "Pode ser que chova mais tarde", pensei. 

Descobri que dirigir com a janela aberta é prejudicial à saúde. Meu braço esquerdo não parece ser da mesma pessoa que ostenta o membro superior direito. Um é quase negro. O outro moreno claro. O braço canhoto é alvo constante dos raios ultravioleta, pensei. Protetor solar é a solução. E quando esqueço dirijo com o braço ligeiramente recolhido. Neste dia eu esqueci e somente lembrei quando o trânsito já estava parado há 5 minutos.

Trânsito parado pode ser reflexo de semáforo demorado ou até excesso de veículos à frente. Se o tráfego continua estagnado por mais de 5 minutos, na minha opinião, é sinal de que algo pode ter acontecido. Estar na inércia por mais de 10 é ter certeza que existe algo de errado.

Ficar estacionado no meio da pista em uma fila de carros aguça a curiosidade. É normal pensar no que pode ter ocorrido lá na frente. Acidente? é sempre a primeira opção que estala na mente. Só que uma caminhonete à minha frente conseguiu subtrair meu campo de visão do horizonte de automóveis.

O sol ainda era forte, mas outras nuvens de chuva faziam companhia às primeiras cumulus. Eu estava na faixa da esquerda e do meu lado direito chegou um caminhão pesado que começou a expelir fumaça preta na minha direção. Fechei a janela direita. O calor aumentou em questão de segundos. Pensei: "Tenho que sair daqui", imediatamente.

Já estava parado no mesmo lugar por mais de 15 minutos Alguns motoristas desligaram o motor. O caminhão não. Pois bem, dei seta à direita, consegui sair da pista e entrar no bairro. A impressão é que todos os carros tiveram a mesma ideia. Sendo assim: bairro e a avenida engarrafados. O tempo fechou e a chuva pesada era questão de minutos. 


Pois bem. Todos os carros que optaram por cortar caminho pelo bairro teriam de voltar para a pista. Um rio com nome de cidade, logo à frente, era o limite. Resultado: tudo travado. Pista, bairro e acessos à pista. Parei em um posto de combustíveis e desci para comprar uma água. A chuva veio forte e pesada. Eu já estava atrasado. 

Tudo virou um caos. Consegui cortar caminho pelo bairro e pulei uns dois quilômetros de engarrafamento pelos trepidantes paralelepípedos. No entanto, tinha de voltar para o caminho de origem. Após mais de 10 minutos aguardando para entrar na pista, consegui. A chuva refrescou o ambiente e a impressão era de que estava prestes a descobrir o causador do grande engarrafamento.

Ingressei em um trecho de subida exigindo bastante da embreagem, no famoso anda e pára, e logo vi o que tinha bloqueado o único corredor de veículos que liga duas cidades com seus quase um milhão de habitantes. Quem vive em Suzano e trabalha em Mogi, como eu, ou vice-versa, conta apenas com um único caminho.  

A famosa, velha e saturada SP-66. Uma pista que há décadas serve de ligação entre as duas cidades. Desde quando se ter um carro era o luxo do luxo.

Minha opinião e de boa parte de quem depende da estrada é uma só: é preciso mais um caminho, pelo menos, para dar conta da alta demanda. Não precisa ser um especialista em mobilidade urbana ou um gênio na área do transporte para enxergar isso. Os anos passaram, projetos são apresentados, mas na prática a coisa não anda. 

E mais uma vez, um caminhão quebrado na altura da Coca foi capaz de atrasar a vida de centenas de pessoas na tarde da última segunda-feira, dia 13 de janeiro. A SP-66 continua sendo a única ligação entre duas cidades. Quem vai dar jeito nisso? Quando? 

Dá próxima vez acho mais fácil comprar um carro com ar condicionado. Com o vidro fechado, a fumaça preta do caminhão não vem direto na minha cara. 

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

A invasão das maritacas

Desde que entrei em férias, agora eu outubro, tenho percebido que Suzano [cidade onde moro] está sendo invadida por inúmeras aves verdes e de canto gritado, conhecidas como maritacas. Elas estão em toda a parte. Antes do meu período de descanso não tinha me dado conta dessa "migração repentina". Porém, desde que passei a caminhar mais pelas ruas da cidade tenho visto centenas dessas aves verdes e barulhentas. Acho interessante.

Não sou biólogo e nem um especialista em pássaros da nossa fauna, mas basta prestar a atenção: elas estão por todos os lados. Acredito que uma das maiores concentrações está na região central de Suzano, nos arredores do Praça dos Expedicionários. Elas ficam nas copas das árvores e contrastam com o ambiente urbano. São verdes e se misturam com a vegetação. Percebemos a sua presença por meio dos seus "gritos".
As árvores da Escola Municipal Antônio Marques Figueira, esquina da Rua Sara Cooper, com a Benjamin Constant, na região central, também servem de moradia para centenas dessas aves. E vira e mexe é possível ver algumas delas paradas sobre as antenas de TV das casas ali nos arredores. Nessas minhas caminhadas pela city também vi muitas maritacas perto de um condomínio residencial na Armando Sales de Oliveira, na esquina com a Rua 15 de novembro. 

Esse "fenômeno" me chamou ainda mais a atenção quando fui com meu pai em um ferro-velho, que fica na região da Avenida Marques Figueira, em Suzano. Caminhando pelo comércio de usados, eu logo percebi o canto de inúmeras maritacas. 

Fui me aproximando e notei que boa parte estava se alimentando em uma espécie de poleiro. Elas comiam sementes de girassol e frutas [banana e goiaba]. Ao que tudo indica, o alimento teria sido colocados ali pelas pessoas que trabalham no local. Não perguntei, mas a estrutura também deve ter sido montada pelo pessoal do ferro-velho, de propósito, para atrair as maritacas. Uma ótima ideia. Fiquei as observando por longos minutos. Fiz uma foto e postei no Instagran.

Eram centenas. Todas aglomeradas disputando sementes que estavam em garrafas pets. Era uma competição para ver quem conseguia ter acesso a um pequeno orifício na garrafa. Era por ali que as aves conseguiam pegar o girassol. Era uma segunda-feira, por volta das 11h. 
Foi depois daquele dia que passei a observar mais sobre a presença desse animal em nosso meio. Notei que elas também estão em outras cidades. Em um sábado pela manhã, estive em São Paulo, na região da Vila Mariana, na zona sul e vi um monte de maritacas nas antenas de TV e árvores do bairro. 

Andei dando uma pesquisada e percebi que essa invasão ocorre em outros lugares. A cidade de Ribeirão Preto é uma delas. Lá, a grande população de pássaros verdes chegou a prejudicar a lavoura e a rotina de moradores de um condomínio residencial. 

A invasão de maritacas nas cidades pode ser fruto de um desequilíbrio. Cada vez mais elas têm perdido espaço em seus ambientes naturais e, sem saída, acabam migrando para os meio urbanos. Nas cidades, encantados com os bichos, muita gente os alimenta com frutos e sementes e eles vão se reproduzindo e vivendo entre os cabos de eletricidade, telefônicos e antenas de TV. 

Confesso que acho isso magnífico  Sempre gostei muito de pássaros dessa família dos psittacidae. [periquitos e papagaios] e essa invasão das maritacas não me incomoda, nem um pouco. Muito pelo contrário, eu gosto. Confesso que dias desses andei jogando umas sementes de girassol no meu quintal com a esperança de atrair uma dessas aves e poder observá-la mais de perto. Isso ocorreu há 15 dias. Até o momento nenhuma delas apareceu na minha casa, rs!

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

O canto da cidade desafinou

Minha adolescência se passou na década de 90. Era outro tempo. Época em que lançaram o Moving Sound Philips e do surgimento do News Kids on The Block. Também teve Guerra do Golfo e o tetracampeonato conquistado pela seleção brasileira de futebol. Eu vivia, como vivo até hoje, em Suzano. E foi justamente nesses anos que o time de vôlei da cidade se tornou o orgulho de boa parte de seus habitantes.

Uma equipe que conquistou vários títulos paulistas, brasileiro e até Campeonato Sul-americano. Suzano era a “Cidade do Vôlei”. Estrelas da seleção brasileira atuavam no time, moravam na cidade e desfilavam, muitas vezes a pé, pelas ruas General Francisco Glicério e Benjamim Constant. Era outro tempo.

O Portelão era a balada e a vibração o combustível das cerca de 5 mil pessoas que lotavam o caldeirão na Barão de Jaceguai, centro. Famílias inteiras frequentavam o ginásio nas noites de sábado, principalmente. Era o ponto de encontro. O time entrava em quadra embalado pela música “O canto da cidade”, de Daniela Mercury.  Era a abertura de mais um espetáculo. E a cidade nos noticiários. Um outro tempo.

No entanto, anos à frente e a situação muda. Suzano não tem mais aquela equipe de vôlei, a cidade quase que não se desenvolveu como deveria, o “esqueleto” continua lá e novos problemas surgiram. O “canto da cidade desafinou”. 
Cerca de 20 anos se passaram e eu vejo a minha Suzano protagonizando o noticiário policial por conta de crimes violentos que chegam a chocar o país.
Veja bem: num curto intervalo de um mês, a Rua Benjamim Constant e a General Francisco Glicério, que na minha visão são locais seguros e vigiados, por abrigar agências bancárias e contar com apoio de câmeras de monitoramento, foi palco de dois crimes bárbaros. 

Jovens são executados em tentativas de assalto. Crime tipificado como latrocínio: matar para roubar. Segundo a polícia, um dos mais difíceis de investigar, já que as vítimas quase sempre não têm relação com os atiradores.

Dias depois, a cidade é palco de mais um crime violento. Dessa vez com características de cinema e em plena zona rural. Bandidos armados com fuzis e metralhadoras, que derrubam até aeronaves, crivam de balas um carro-forte na pacata Estrada dos Fernandes. 

O grupo estava em dois carros blindados. Um dos veículos era adaptado para a guerra urbana. No porta-malas havia um suporte de apoio para o atirador. A única abertura eram dois orifícios usados para encaixar os canos das metrancas. Saldo: suzanenses assustados mais uma vez.
Sou jornalista e lido diariamente com esse tipo de notícia. Mas confesso que fico triste em ver minha cidade sendo corroída por essas ações brutais de ultimamente. 

A cada dia um novo episódio. E neste “campeonato” a ex-terra do vôlei está em desvantagem. E começa a perder “sets" importantes. O que a torcida suzanense espera é a virada, como sempre. Empurrada por milhares de gritos no Portelão. E deixar claro que, a cor dessa cidade é a cor da paz.