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terça-feira, 11 de março de 2014

O passageiro

No primeiro feriado de 9 de julho que foi instituído em 1997 no Estado de São Paulo eu não dormi até tarde. Estava bem acordado quando alguém (não me lembro quem) chegou em casa dizendo que havia um boato de que um avião caíra em Suzano naquela manhã de sol. Fiquei espantando. Liguei o rádio no noticiário e logo ouvi o repórter informando que um corpo foi encontrado em uma plantação em Suzano. Eram fortes as suspeitas de que o homem morto, na verdade, tratava-se de um passageiro que fora ejetado de um avião da TAM, em pleno voo, durante uma explosão. Eu, estudante de jornalismo, com  20 anos de idade, fiquei hiper agitado com essa notícia. A todo custo queria ir ao local onde o corpo do passageiro foi localizado. 

A notícia se espalhou rapidamente pelo país. Isso porque em menos de um ano aquele era o segundo acidente envolvendo um avião da TAM. Em outubro de 1996, um Fokker 100 caiu no bairro Jabaquara, minutos após a decolagem: 99 morreram. Estive no local, na época. Estava há poucos meses na faculdade de jornalismo. Aproveitei a ida à capital para participar de um curso e, na volta, estiquei até a Zona Sul. Havia passado quatro dias do acidente. Jamais esquecerei o cenário de destruição na Rua Luis Orsini de Castro. Fiquei um tempo olhando a movimentação dos repórteres que ainda faziam plantão no local e tive mais certeza que era aquela a profissão que queria seguir.

Com a certeza no peito, no dia 9 de julho, do mesmo modo fiquei ouriçado para chegar ao local da queda do passageiro em Suzano. Eu nem tinha máquina fotográfica, mas o simples fato de ver de perto aquela ocorrência já me deixava satisfeito. Fui até a casa da minha avó, encontrei meu tio e o convenci de irmos até os arredores do Distrito de Palmeiras para tentar descobrir algo. Naquele momento a imprensa já dava como certa a versão. Era um passageiro que caiu do avião após uma explosão. A aeronave prosseguiu em seu voo até Congonhas onde pousou com segurança. Ninguém mais se feriu. Meu tio topou de me levar lá pros lados de Palmeiras, onde a imprensa dizia que o homem caiu.


Explosão abriu um buraco na fuselagem do avião. Foto: Google Imagens
A bordo do Fiat Uno prata seguimos na aventura pela Rodovia Índio Tibiriça. Eu não tinha muita noção onde era o ponto exato da ocorrência, mas fomos a esmo, sentido Distrito de Palmeiras. Por pouco tempo me senti um repórter indo para a pauta. A adrenalina do momento me dava uma sensação de satisfação. Não ia registrar nada do que estava acontecendo, mas sentia uma imensa vontade de estar envolvido naquilo. 

Fomos até Palmeiras, rodamos por uma estrada de terra e o tal sítio onde o corpo foi achado ficava cada vez mais longe. Resultado: não encontramos nada. Na volta cruzamos com um carro de reportagem do SBT. Até pensei em segui-lo, mas meu tio achou melhor irmos embora. 

Mais tarde os telejornais só falavam desse assunto. Me lembro perfeitamente que, por volta das 15h, um helicóptero branco e robusto, daqueles que têm até trem de pouso, desceu no terreno onde hoje está instalado um hipermercado e o shopping de Suzano. Desembarcou um dos diretores da TAM. De carro ele seguiu até o local do acidente.


Eu, que era leitor assíduo dos jornais da região e da capital, não via hora de chegar o dia seguinte para pegar os periódicos. O primeiro foi o Diário de Suzano. Me lembro da capa até hoje. Porém, um nome me chamou a atenção: Carlos Magno. Era o fotógrafo que fez as fotos do passageiro morto. Logo depois fiquei sabendo que ele foi o único fotógrafo do país a registrar a cena do acidente. As fotos dele rodaram o mundo e ilustraram as capa de quase todos os jornais e revistas do Brasil. Em poucos minutos virei fã do profissional. 

Eu conhecia os profissionais da imprensa regional somente por meio de créditos. São os nomes no cantinho das fotos e no topo das matérias. E pensava: Será que um dia me tornarei como eles. O sonho era ter o meu nome creditado em uma matéria. "Quem sabe um dia", pensava eu. Aliás, sonho de qualquer estudante amante do jornalismo.


Carlos Magno e o registro de sua história no livro Memórias
de Suzano.
O tempo passou e em 2008 acabei conhecendo Carlos Magno pessoalmente. Foi quando participei do projeto para escrever o livro Memórias de Suzano, com outras 3 amigas jornalistas. A obra tem um capítulo especial, escrito pela amiga Carla Fiamini, o qual relata o grande feito do fotógrafo suzanense. 


Desde então em todos os feriados estaduais em que se comemora a Revolução Constitucionalista de 32 a história do passageiro ejetado do avião me vem a cabeça. Às vezes me pego olhando para o céu em sincronia com o ruído agudo de um jato qualquer. E sempre vou acompanhando o movimento da aeronave até ela desaparecer do meu campo de visão. E quase sempre durante essas observações a tal história me vem à cabeça. "Como ele [passageiro] foi cair justo em Suzano".


segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Veja como parar de fumar. [Eu parei]

Estava diante da janela da sala com a cortina e vidros abertos para fazer a fumaça escapar. Passava das 23h quando dei uma longa tragada no cigarro de filtro branco. Pensava que no dia seguinte tudo seria diferente. Esse foi o último cigarro que fumei, no final da noite do dia 25 de janeiro de 2010. Desde então, nem mais uma tragada. São 4 anos sem a substância.

Fui um adolescente que nunca dei muita bola para esse negócio de cigarro. Meu pai fumava [ex-fumante]. Meu irmão mais novo dava umas tragadas por aí [ele ainda fuma], mas eu não ligava muito. Porém, no final dos anos 90, encasquetei que queria aprender a tragar. 

Já tinha uns 18. Queria saber soltar a fumaça e passei rápido por esse exercício fácil. No começo dá até tontura. Fiquei nessa de fumar de vez em quanto uns 6 meses. Entrei na faculdade e antes de aprender Metodologia Científica já era um fumante. No ano seguinte estava fumando quase um maço por dia. 

Quem fuma sabe. O falso bem estar inexplicável não vem apenas do ato de tragar aquela fumaça tóxica. O cigarro é o companheiro de mentira em horas felizes, tristes e agitadas. Se espera alguém: fuma. Se a pessoa chega: fuma. Se termina um trabalho: fuma. Se vai começar um trabalho: fuma de novo. O ato de fumar se envolve na rotina do viciado. Por isso que é realmente extremamente difícil abandonar isso. Você sente a falta da droga na corrente sanguínea e também sente a falta da companhia do cigarro nas coisas que fazia com ele. [só fumantes e ex-fumantes entenderão 100% essa passagem do texto]. E se eu ainda fumasse, talvez daria uma pausa agora para acender um.

Não sou chato ex-fumante, daqueles que gostam de palestrar diante dos que ainda usam a substância. Quem quer fumar, fume. Falo que consegui parar com muito prazer, mas somente se houver um momento oportuno. Não ligo para o cheiro da fumaça. Ela nunca me incomodou e, mesmo depois da separação, não ligo de estar ao lado das pessoas que fumam. 

Pois bem. Depois de anos ao lado do cigarro a vontade de parar começou a piscar no painel. Em 2003, cheguei a ficar 6 meses sem fumar, mas acabei voltando. É que não adianta os outros quererem. Quem toma é decisão é quem fuma. No final de 2009 fiz um check up e o médico disse: "Douglas, você está ótimo, não tem nada. Vai esperar ter alguma complicação para largar o cigarro?". Aquela frase martelou na minha cabeça de forma cadenciada durante um tempo. Como uma bate estaca da construção civil.

Parar de fumar não é como deixar de comer algo que você gosta. É diferente de não ir mais naquele bar que você ama. Não é igual desistir de um curso que sempre quis fazer. Nada disso. Abandonar o vício é deixar de consumir algo que o corpo pede de forma gritada. 

Mas é possível parar de fumar. Claro que é. Depois que saí da sala do médico a ideia de parar com a droga ficou na minha cabeça. Só precisava elaborar um plano para isso. Era meados de setembro de 2009 começava a me preparar e fixei uma data. Pensei comigo: fumarei até o dia 25 de janeiro do ano que vem. Depois disso, não mais. E sabia que esse dia chegaria. Depois do Natal e Ano Novo logo veio a noite do dia prometido. E lá estava: eu e ele. Fumei o último cigarro como se estivesse despedindo de alguém que não queria mais ver. [vai embora, será melhor para mim]. Essa era a pegada. 

No dia seguinte as pessoas logo perceberam que eu não mais mantinha mais entre os dedos aquele pequeno cilindro de papel nocivo. Os dois meses seguintes foram difíceis. Muito difícil. A abstinência dói. Mas é como atravessar uma turbulência, uma tempestade, uma noite escura... uma hora acaba. E quando passa você sente uma satisfação imensurável.

Um ex-fumante sempre lembrará que já foi fumante, mas dá pra conviver com isso numa boa. Dá vontade as vezes, mas é algo fácil de lidar. Como se fosse vontade de comer lasanha. Se não tem, não come. Dá para viver sem lasanha. 

A pior parte é que engordamos. O alimento fica mais gostoso. No entanto, muitas vezes mantemos alguns rituais da época da droga. Por exemplo, trabalho com alguns fumantes e ainda frequento o fumódromo para papear e descontrair. Eles fumam e eu como uma banana.  

Depois de atravessar a dolorosa separação até parece que foi fácil. Tomo café e cerveja e nem lembro que ele existe. Mas não foi fácil. Por isso sempre digo aos mais novos e as pessoas que estão nessa de aprender a tragar, como eu fiz um dia. O caminho mais fácil para largar o cigarro é nunca fumar. Estou livre há 4 anos. 

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

O fenômeno La La La Dog

Era uma terça-feira. Minhas férias estavam chegando ao fim e resolvi ligar o computador para acessar o portal de notícias onde trabalho. Li a matéria que ganhava destaque na página naquela manhã do dia 29 de outubro. O desenho do cão colorido me despertou interesse e a história do artista me fascinou logo de cara. 

Já tinha visto a arte do rapaz em alguns muros de Mogi das Cruzes no embaralhado meio urbano, mas não botei muito reparo. Porém, lendo o texto, percebi que aquilo tinha uma razão. O amor verdadeiro entre o cão e seu dono. Havia acabado de ser apresentado ao La La La Dog. Uma manifestação artística em homenagem à cachorra [falecida] do grafiteiro. A dogue alemã, Dalila.

Basta dar umas voltas por Mogi das Cruzes com atenção voltada aos muros e fachadas abandonadas. Não é difícil de encontrar. Trata-se de um desenho feito com tinta spray. A figura é de um cachorro de porte grande. São várias as cores. Tem La La La boiadeiro, prateado, Papai Noel, azul e rosa, verde, preto...

E o cão foi adquirindo popularidade. Foi ganhando admiração não só de crianças, mas de muitos adultos, inclusive eu. Em Mogi existe um grupo de amigos que sai à “caça” dos La La La Dogs. O objetivo é fotografar a arte urbana. Melhor ainda é sair na foto ao lado do cão mais famoso de Mogi. E além da região, o artista já deixou sua marca em São Paulo, litoral paulista e até em Porto Alegre.

No dia 25 de dezembro me surpreendi com uma ilustração em Suzano, talvez a primeira marca dele na cidade. Na cor azul, em uma porta de ferro... lá estava a arte. Fotografei e contei a história para a minha noiva que também ficou fascinada. O imóvel estava para alugar e pertence a uma pessoa conhecida da minha família. O desenho não teria agradado num primeiro momento, mas ao tomar conhecimento da história, La La La Dog ganhou mais fãs suzanenses.

E a fama do cão colorido só faz aumentar. A primeira exposição foi marcada no shopping de Mogi das Cruzes. Conversei com o artista Jaum por telefone [não o conheço pessoalmente] para uma matéria jornalística. Sujeito calmo, de fala tranquila e feliz com as coisas boas que a arte lhe proporcionou.

A imagem da cachorra Dalila nos muros velhos de Mogi das Cruzes reflete um pouco do amor que muitos sentem por seus animais de estimação. Eu estou nesse grupo de apaixonado por cães. São os seres mais puros e verdadeiros que conheço [característica rara entre os humanos]. E é por isso que a Dalila merece toda essa exaltação espontânea que vem das ruas. E o Jaum, artista que passei a admirar, tem todo o meu respeito.

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Sem saída

Meu carro não tem ar condicionado. Então conto apenas com a abertura das janelas. O ar circula enquanto o veículo desliza sobre o escaldante asfalto dos dias quentes deste janeirão de 2014. Sabe aquele horizonte de piche derretido? A máquina sofre, o ponteiro da temperatura logo alcança o máximo e a ventoinha se desdobra. 

Depois do almoço os termômetros tinham acabado de passar pelos 30. O trânsito seguia normal e, no céu, as primeiras cumulus nimbos já estavam estacionadas. "Pode ser que chova mais tarde", pensei. 

Descobri que dirigir com a janela aberta é prejudicial à saúde. Meu braço esquerdo não parece ser da mesma pessoa que ostenta o membro superior direito. Um é quase negro. O outro moreno claro. O braço canhoto é alvo constante dos raios ultravioleta, pensei. Protetor solar é a solução. E quando esqueço dirijo com o braço ligeiramente recolhido. Neste dia eu esqueci e somente lembrei quando o trânsito já estava parado há 5 minutos.

Trânsito parado pode ser reflexo de semáforo demorado ou até excesso de veículos à frente. Se o tráfego continua estagnado por mais de 5 minutos, na minha opinião, é sinal de que algo pode ter acontecido. Estar na inércia por mais de 10 é ter certeza que existe algo de errado.

Ficar estacionado no meio da pista em uma fila de carros aguça a curiosidade. É normal pensar no que pode ter ocorrido lá na frente. Acidente? é sempre a primeira opção que estala na mente. Só que uma caminhonete à minha frente conseguiu subtrair meu campo de visão do horizonte de automóveis.

O sol ainda era forte, mas outras nuvens de chuva faziam companhia às primeiras cumulus. Eu estava na faixa da esquerda e do meu lado direito chegou um caminhão pesado que começou a expelir fumaça preta na minha direção. Fechei a janela direita. O calor aumentou em questão de segundos. Pensei: "Tenho que sair daqui", imediatamente.

Já estava parado no mesmo lugar por mais de 15 minutos Alguns motoristas desligaram o motor. O caminhão não. Pois bem, dei seta à direita, consegui sair da pista e entrar no bairro. A impressão é que todos os carros tiveram a mesma ideia. Sendo assim: bairro e a avenida engarrafados. O tempo fechou e a chuva pesada era questão de minutos. 


Pois bem. Todos os carros que optaram por cortar caminho pelo bairro teriam de voltar para a pista. Um rio com nome de cidade, logo à frente, era o limite. Resultado: tudo travado. Pista, bairro e acessos à pista. Parei em um posto de combustíveis e desci para comprar uma água. A chuva veio forte e pesada. Eu já estava atrasado. 

Tudo virou um caos. Consegui cortar caminho pelo bairro e pulei uns dois quilômetros de engarrafamento pelos trepidantes paralelepípedos. No entanto, tinha de voltar para o caminho de origem. Após mais de 10 minutos aguardando para entrar na pista, consegui. A chuva refrescou o ambiente e a impressão era de que estava prestes a descobrir o causador do grande engarrafamento.

Ingressei em um trecho de subida exigindo bastante da embreagem, no famoso anda e pára, e logo vi o que tinha bloqueado o único corredor de veículos que liga duas cidades com seus quase um milhão de habitantes. Quem vive em Suzano e trabalha em Mogi, como eu, ou vice-versa, conta apenas com um único caminho.  

A famosa, velha e saturada SP-66. Uma pista que há décadas serve de ligação entre as duas cidades. Desde quando se ter um carro era o luxo do luxo.

Minha opinião e de boa parte de quem depende da estrada é uma só: é preciso mais um caminho, pelo menos, para dar conta da alta demanda. Não precisa ser um especialista em mobilidade urbana ou um gênio na área do transporte para enxergar isso. Os anos passaram, projetos são apresentados, mas na prática a coisa não anda. 

E mais uma vez, um caminhão quebrado na altura da Coca foi capaz de atrasar a vida de centenas de pessoas na tarde da última segunda-feira, dia 13 de janeiro. A SP-66 continua sendo a única ligação entre duas cidades. Quem vai dar jeito nisso? Quando? 

Dá próxima vez acho mais fácil comprar um carro com ar condicionado. Com o vidro fechado, a fumaça preta do caminhão não vem direto na minha cara. 

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Meu primeiro dia do ano

Tenho 36 anos. Não tenho filhos. Existe idade certa para ser pai? Me peguei pensando sobre isso recentemente. Surgiu no dia 1º de janeiro. Nesse dia acordei cedo. Era plantão na "firma" [minha futura esposa odeia que eu use esse termo]. Estava cheio de sono, afinal, no dia anterior a festa com a família foi intensa. 

Passava da meia noite e ainda era cedo para cair na cama. Cedo por conta das comemorações em andamento. Cedo por causa do calor. A impressão era de que o Sol estava escondido embaixo da minha cama.

Não sei o que anda acontecendo. A pessoa mais indicada para explicar esse calorão fora do normal é a minha colega Desirré Brandt. Ela não tem culpa, mas não gosto de ouvi-la dizendo na rádio: "E nada muda, o calor deve continuar em SP". Saudade da massa de ar polar.

Consegui me desligar quando já passava das 2h30. O último estampido de fogos 12 tiros que ouvi foi às 2h21. Nem foi o estouro que me despertou. E sim o granido da cachorra que sofria desde às 17h com os estouros. O olhar dela era de pânico. Meu pai virou o ano no quintal fazendo companhia para a pequena cachorra de pelos pretos chamada Chanel. Não gosto dessas bombas, pensei. Depois disso, peguei no sono.

Despertei sem problemas pela manhã. E rapidinho já estava na estrada. No caminho para o trabalho não havia carros na rua. E poucos pedestres. Parava no semáforo e um silêncio fora do comum vinha de fora. Nada igual o cenário urbano de um dia útil. Procurei um lugar para tomar café, mas quase todas as padarias estavam com as portas fechadas. Fui seguindo meu caminho. 

Achei uma quase chegando ao trabalho. Estacionei o carro e notei que havia um menino sentado bem na porta do estabelecimento. Camisa preta de banda de rock, jeans e All Star. Acionei o alarme do carro e, quando caminhava em direção a porta da padoca com chave, carteira e celular nas mãos, ele me perguntou. "Senhor, posso tomar conta?". Fiz sinal de positivo.

Dentro do estabelecimento eram poucas pessoas no balcão, menos ainda atendendo. Mesmo assim tudo foi rápido. Tomei um café reforçado. Lembei que levava dois refrigerantes de dois litros no banco traseiro do carro. Era o ingresso para o almoço de ano novo que seria armado no refeitório da TV, logo mais. Cada um levou um prato salgado, sobremesa ou refrigerante.

Na fila de caixa separei R$ 1 para o menino que prometeu guardar o veículo. Paguei no débito, guardei o cartão, perdi o ticket recibo que os economistas nos orientam a guardar. Enfiei carteira e celular de ponta cabeça no bolso. Acionei o alarme. E o menino surgiu. Dei a moeda e ele agradeceu dizendo algo que ficou na minha cabeça: "Obrigado, feliz ano novo para o senhor e para os seus filhos". Entrei no carro às 8h40 e fui enfrentar o primeiro dia de trabalho de 2014. 

sábado, 28 de dezembro de 2013

O ano termina. E nasce outra vez.

Foi tentando desativar o touchpad do notebook na manhã do último dia 27 de dezembro que comecei a lembrar dos fatos e notícias que alimentaram 2013. Um ano produtivo, cheio de alegrias e desafios. Voltei mais no tempo e lembrei ainda do Natal e Ano Novo de 1994. Não sei o motivo. Mas vieram as músicas do CD especial de Natal da cantora Simone na cabeça. Quem não se lembra do "Então é Natal".

Bons tempos. Naquele ano eu e meu irmão trabalhávamos em uma papelaria na Rua Benjamin Constant, no centro de Suzano. E durante o mês de dezembro este CD natalino cheio de refrãos marcantes tocou todos os dias na loja. Das 8h às 22h. Só deram "stop" por volta das 19h do dia 24. 

Durante o mês de Natal ele ficou no modo repeat. O que era bonitinho no começo virou tortura. Mesmo assim tenho saudade daquele ano. Aos 17 vi o Brasil ser tetracampeão. No ano seguinte me alistei no exército e enfrentei mais dificuldades nas aulas de física e matemática no 3º colegial.

Adoro lembranças e retrospectivas. Já disse aqui no blog. Escrevi sobre cheiros que me levam de volta ao passado. E tenho uma memória boa para garimpar certos detalhes de épocas passadas. Ainda em 1994, no dia 31 de dezembro, nós, funcionários da papelaria, lavamos a loja. Esfreguamos o chão com sabão e usamos muita água no enxágue. Era a sensação de fechar o ano com a consciência tranquila. 

Penso que isso seja o mais importante. Chegar ao final dos doze meses com a cabeça sossegada. Dívidas, quase todos nós temos. Mas não estou falando de pendências financeiras. O legal é ficar em paz. E se for para fazer o bem que seja o ano todo. Em pequenas ações. 

Alguns fatos me marcaram durante este 2013, ou melhor, duas reportagens que fiz. Imagina um casal que tem a primeira filha criada com amor e carinho. De repente, essa criança adoece e o diagnóstico é arrebatador: câncer no cérebro. A menina lutou contra a doença, mas acabou morrendo cerca de um ano depois. 

No entanto, a partida da filha acendeu a luz da caridade sincera nos pais. Pai e mãe, com o coração dilacerado, se tornaram voluntários em uma associação que cuida de crianças com câncer. E mais: fundaram um grupo e, vestidos de palhaços, visitam escolas e hospitais. A dor deles virou combustível para ajudar outras crianças doentes. Carina e Carlos admiro vocês. Quem quiser ler a matéria, basta clicar aqui. (não é vírus não, rs)

Outro fato que me chamou atenção em 2013 ocorreu já quase no final do ano. Foi quando conheci um Papai Noel de verdade. Não pela barba branca, roupa vermelha e o sininho. Não por isso. E sim pela bondade, felicidade e amor que ele distribui gratuitamente. É o seu Thomaz Fidalgo. Construiu um trenó adaptado sobre o chassi de um Fusca. E com o veículo especial sai às ruas de Suzano levando presentes e doces às crianças carentes. E a doação dele dura o ano todo. Longe da época de Natal, ele faz campanha dentro da pastoral da criança. Estive na casa desse senhor e, desde então, passei a acreditar em Papai Noel. Link da matéria 

E 2013 termina já já. Será lembrado como o ano das manifestações, do futebol campeão das Confederações e do Papa Francisco arrastando multidões. Em janeiro começa tudo de novo. Como diz a cantora Simone na conhecida canção "o ano nasce outra vez". Tenho o sentimento de dever cumprido, como o chão da loja lavada. Mas ainda tenho que desativar o touchpad do notebook. 

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Papai Noel no verão brasileiro

Lá vai ele sob o insano calor e agasalhado até a garganta. Eis o Papai Noel brasileiro. É justo o bom velhinho tupiniquim ter de derreter dentro do traje típico do polo norte em pleno o dezembrão com clima senegalês que vivemos por aqui? Todos os anos me pergunto isso. Acho que eu nunca seria Papai Noel por causa disso. 

Sou uma pessoa que sofre demais com o calor. Já relatei isso aqui no blog. Sou do tipo que idolatro o ar condicionado. Penso eu que não há como se defender das garras do verão. Vejamos. Com um frio de zero grau podemos vestir duas luvas, cachecóis e touca. E sob um sol de 40º? Só se ficarmos mergulhados em um recipiente com água até o pescoço e com pedras de gelo. Agora imagina o Noel e seu figurino?


O bom velhinho no Brasil tem de se cobrir como se estivesse gelo, sorrir pra criançada, tirar foto, e ver a neve de mentira cair na vitrine quente, enquanto no asfalto do estacionamento do shopping, lá fora, dá até pra fritar ovos no chão. Estes dias vi uma reportagem sobre um Papai Noel que recorre ao ventilador para trabalhar sob os 40º do Acre. Ele desenvolve sua função sentando e, bem ao lado, mantém o aparelho ligado no último. O forte vento esvoaça sua barba artificial e traz um frescor de mentira.

Agora, e se o bom velhinho viesse do Hawaí. Tatuado e de camisa florida?. Continuaria com as barbas brancas e manteria o ho, ho, ho. Nada de trenó e sim prancha de surf. Nada de renas. Ele poderia até usar um velho bugue vermelho para entregar os mimos. Regata, chinelos de dedo e óculos escuros.
Seria ótimo para nós. Papai Noel do litoral. E o velhinho queimado do Sol percorreria fácil pelo comércio da 25 de março, em São Paulo, ao meio-dia. Ficaria leve em Goiás e não se incomodaria com o sol quente de Manaus. Bastava aplicar o protetor solar. É claro que não seria a mesma coisa. Pensando bem, acredito que existem coisas que só são como são porque sempre foram como são. E não seriam se fossem diferente de como são. (pessoal, eu estou são escrevendo isso, ok?)

Não adianta. Papai Noel tem de ser do Polo Norte mesmo e continuar sofrendo no calor aqui no Brasil como o figurino. Certa vez durante a produção de uma matéria eu perguntei a um Papai Noel sobre o calor intenso de ficar com aquela roupa quente. E ele respondeu que o olhar e o sorriso das crianças lhe refrescavam o espírito e o corpo. É, ele tem razão. E se um dia minha esposa pedir para eu me vestir de Papai Noel para o meu filho [quando eu for pai], com certeza, eu o farei em pleno calor de dezembro. Feliz Natal a todos.


segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

O segundo melhor presente de Natal

Eu quis ganhar um ônibus de Natal em 1986. E ganhei. Foi o segundo melhor presente que Papai Noel me entregou. [só perdeu para o Atari, em 1987]. A réplica de um modelo de turismo era feita de lata, alumínio e plástico. Devia ter uns 80 centímetros de comprimento. O meu era da empresa Itapemirim e meu irmão virou dono de um coletivo da Expresso Brasileiro. Eram iguaizinhos aos de verdade. O corredor da minha antiga casa se tornou uma enorme avenida, devidamente pavimentada pelo felpudo carpete marrom claro e fiscalizada pelos olhares dos meus pais que refletiam a alegria dos filhos.

Citei o bom velhinho no começo do texto, mas a essa altura, aos 9 anos, eu não mais acreditava que os presentes das crianças do mundo inteiro eram, realmente, entregues por ele. Por isso pedi diretamente aos meus pais o tal ônibus. Nada de escrever carta para Noel.

Depois de um tempo desconfiei que os dois ônibus de brinquedo [meu e do meu irmão] foram comprados em outubro daquele ano. Minha investigação começou quando chegou o informativo de que não teríamos presente no dia das crianças. Sabia que o tal ônibus era caro e que meu irmão iria ganhar um igual. A investigação prosseguiu. 

Não questionei meus pais diretamente, mas, num certo dia, como que se estivesse munido com um mandado de busca e apreensão, eu revirei os possíveis locais onde os dois ônibus deviam estar ocultados.

Era uma tarde. Dia de semana. Minha mãe devia estar lavando o quintal. A TV ligada e eu vasculhando um dos quartos. Fui direito ao ponto. Estava embaixo de um monte de panos [se não me engano] dentro do guarda roupas.

Os veículos eram mantidos dentro de uma embalagem de papelão. Abri uma frestinha e toquei os dedos sobre a lisa lataria. Lembro do cheiro do brinquedo. Foi um momento de muita alegria. Era a certeza de que os ônibus viriam no dia 24 de dezembro. Não me lembro se revelei ao meu irmão, com 6 anos, o resultado da investigação. Também não tenho recordação se meus pais souberam disso. Enfim, acho que, no fundo, sabiam que eu sabia. 

Dia 24 de dezembro amanheceu chuvoso e nublado. Os dois veículos estavam embrulhados e estacionados aos pés da árvore. Rasgamos os papéis e os veículos saíram em alta velocidade. Chovia lá fora, mas na avenida imaginária por onde os ônibus circulariam predominava o clima que nós desejássemos. Perto da porta da cozinha era o ponto final. Não havia terminal rodoviário. Eles percorriam o longo corredor até o último quarto e voltavam. Nessa estrada não havia acidentes, imprudência no trânsito e os atraso nas viagens. Eu e meu irmão brincávamos por horas a fio com os veículos novinhos, literalmente, cheirando a tinta.

Assim como nos coletivos de verdade, os nossos ônibus prestavam serviço por todo o País. Eram empurrados sempre pelo mesmo carpete: o corredor da minha antiga casa. E como criança é especialista em imitar ronco de motores, conosco não era diferente. O ruído que vinha do peito infantil e escapava pela boca pequena narrava a arrancada, o aumento de velocidade e a estabilidade na estrada aos 80 km/h. Variava do grave ao agudo, no momento da frenagem. E nessa caravana da imaginação os ônibus passaram pelo Piauí, Pernambuco, Santa Catarina e rodaram muito em São Paulo.

A viajem, às vezes, era interrompida por minha pequena irmã, na época com 2 anos, que tinha recebido uma boneca de Natal. O problema é que ela também queria um ônibus. Não para empurrar, mas para andar sentada em cima. E por causa disso teve muita confusão. 

Virei fã dos ônibus de turismo naquela época e, num certo dia, meu pai nos levou ao Terminal Rodoviário do Tietê para conhecer os possantes movidos a diesel. Descobrimos que nossos ônibus existiam de verdade. Aquilo fortaleceu a minha imaginação e deu credibilidade à brincadeira que seguiu por anos e anos. 

E no Natal de 1986 o dia seguiu nublado. Papai Noel não entrou pela janela da minha casa. Nem deixou os ônibus dentro de meias. Mas tive a certeza que o espírito dele estava presente. Como ainda está, em todos os natais, ao redor da minha família, na nossa árvore piscante, no presépio e em cada um de nós que acreditamos no espírito de Natal. Papai Noel existe, com certeza. 

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

O soneca não falhou em vão

Às 6h15 o celular despertou. Uma melodia simples, para não assustar os demais que dormiam sem horário para acordar. Com a mão esquerda saquei o aparelho que repousava sobre o criado e deslizei o polegar na tela touch screen em direção ao botão soneca. Tinha garantido mais 15 minutos de sono. Ilusão boba, afinal, são 15 minutos que se desenrolam como 15 segundos.

Às 6h40 despertei, sem susto. Eram 10 minutos a mais dos que foram previstos. Fixei os olhos no display do telefone e notei que o serviço soneca não havia funcionado. Estranho. Isso nunca aconteceu. Abandonei o travesseiro e mesmo sem enxergar lá fora percebi que garoava fino. Desembarquei da cama e caminhei em direção ao banheiro. Um banho e o retorno ao quarto às 7h.

Devidamente vestido, dentes escovados e com uma dose de perfume aplicada estrategicamente sobre a pele, chego à cozinha. Leite, chocolate instantâneo e bolachas. A primeira refeição foi feita em pé. Mastigando e olhando para o nada. Engolindo e olhando para o mesmo nada. Azulejo era o nada. Mais uma passada no banheiro e às 7h20 embarquei. Primeira marcha engatada, rádio ligado no noticiário, duas mãos no volante e fui adiante. Destino: Mogi das Cruzes. Sábado de plantão.

Não era para ser assim, mas o trânsito estava pesado. Segui quase sempre na pista da esquerda, sem chegar aos 60 km/h. Sinal vermelho. Longas filas. O sinal abre e os carros demoram para sair. Fui controlando na embreagem e quase na minha vez de cruzar o semáforo surge a amarela que rapidinho dá lugar à vermelha. Parei injuriado, mas 30 segundos depois, fui, aliviado. Pouco mais adiante surge um engarrafamento, às 7h35.

Não imaginei o que pudesse ser. Andava, parava. Estava em Brás Cubas, pouco depois da 'subida da Coca”. Foi enroscado assim mais uns 500 metros até que notei luzes, bombeiros e Samu. Era um acidente. A primeira cena que vi: um carro tombado na calçada e dois bastante danificados. Na versão da polícia um carro desgovernado bateu em cheio em um veículo que chegou a ser projetado para a pista contrária. O carro parou quando atingiu um terceiro automóvel.

Penso que os ocupantes do segundo carro tenham sofrido o susto maior. O veículo recebeu um violento impacto por trás. A mulher que dirigia foi lançada para fora. No banco do passageiro o marido. Testemunhas disseram que ele gritava de desespero. A pista foi bloqueada. Choveu Samu, bombeiros, PMS e curiosos. Por sorte, ninguém se feriu com gravidade. Fotografei, peguei algumas informações e deixei o local.



Penso que este segundo carro poderia ter sido o meu. É o meu caminho. Fiquei pensando nisso durante o restante do trajeto até o meu local de trabalho. Eu poderia ter sido surpreendido pelo veículo desgovernado. Aliás, qualquer pessoa poderia estar naquela hora, naquele lugar. Ainda comentei isso com uma testemunha lá no local.

Penso que o dispositivo soneca do meu celular não falhou em vão. Ele me atrasou em 10 minutos e pode ter me tirado da área do acidente. O segundo carro poderia, sim, ser o meu. A vítima poderia ter sido eu. Um pequeno atraso pode ser um grande aliado, levando em conta essa minha tese. Não foi coincidência e nem defeito no celular. Em Deus eu confio.


quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Minha primeira vez na televisão

Desci do ônibus e logo entrei em uma fila com outras 30 crianças. Era noite, por volta das 19h. Ficamos na calçada e logo apareceu uma mulher de voz alta. Ela usava um crachá escrito produção. Rapidamente a moça organizou a fila e ordenou que todos entrassem, em silêncio, sem mexer em nada. 
Eu tinha 10 anos de idade. O ano era 1987. Estava chegando à sede do SBT, que na ocasião ainda era chamado de TVS. A excursão da 4ª série de um colégio estadual de Suzano chegava à emissora para participar do programa Oradukapeta, apresentado por Sérgio Malandro. Foi a primeira vez que entrei em uma emissora de televisão.

Lembro como se fosse hoje. Assim que fomos recepcionados pela mulher de voz alta e estridente seguimos em fila indiana pelo corredor da emissora. Minha vontade, assim que saí de Suzano, era participar do programa, principalmente de um quadro onde as crianças entravam em uma série de cobranças de pênaltis e o goleiro era o apresentador: Sérgio Malandro. O quadro "A porta dos desesperados" ainda não era tão famoso.


Mas, meu objetivo mudou assim que comecei a dar os primeiros passos naquele ambiente mágico. A fila andava, em silêncio, como havia ordenado a mulher da produção. E eu, é claro, observava tudo. Eu vi cabos, câmeras e muita gente apressada. No entanto, o que mais me chamou a atenção foram os cenários de outros programas. Eram roletas usadas pelo palhaço Bozo para sortear prêmios. Fiquei hipnotizado. E pensei. "Estou dentro da televisão". 

Logo depois vi o estúdio do Bozo. A fila andava e eu olhei para uma porta aberta à esquerda. Tinha uma mulher varrendo o chão do lugar onde o programa era feito. E eu reconheci o lugar. Não queria ver o Bozo, queria entrar no estúdio. 

De repente o andor pára. A mulher da produção volta a advertir os mirins que àquela altura já tinham desobedecido a ordem e falavam mais que papagaios. Ela apontou uma porta larga e disse. "Aqui dentro está acontecendo, agora, ao vivo, um telejornal. Portanto, vocês precisam ficar quietos. Quem desobedecer não vai brincar com o Sérgio Malandro".  Naquela época o SBT exibia, no começo da noite, um telejornal. Era o extinto Cidade 4, apresentado por Bóris Casoy. 


Nessa idade, aos 10 anos, eu cursava a quarta-série na Escola Estadual Antonio Maques Figueira, em Suzano. Era uma criança obediente. Não dava trabalho aos professores. O único ponto negativo era a matemática. Nunca entrou na minha cabeça.

Gostava de ler e assistir televisão. Não tinha video cassete e nem TV por assinatura. Estudava pela manhã, fazia o dever de casa e pronto. Assistia desenhos, programas infantis e à noite, às vezes, acabava acompanhando o jornal Cidade 4, no SBT. 

Por isso, quando a mulher de voz alta ordenou que mantivéssemos o silêncio eu quase pedi para entrar e ver o jornal, ao vivo. Abria mão de Sérgio Malandro e cobranças de pênaltis, fácil. Mas fiquei quieto. Fiquei imaginando que ali havia um homem (Bóris Casoy, que eu nem conhecia direito) falando aquelas notícias que eu sempre via na sala da minha casa. 

Fiquei com aquilo na cabeça. A fila andou e chegamos ao estúdio do Oradukapeta. Gravamos uns três programas. Não fui chamado para bater pênaltis, mas me diverti mesmo assim. Os garotos mais "riquinhos" diziam "Quando for passar na TV vou pedir para minha mãe gravar no videocassete". Fiquei curisoso, quis saber como dava para fazer aquilo. Em casa, meu pai me explicou. Mas, nós não tínhamos esse aparelho, ainda. 

Mas nem dei importância para isso pois a sensação de saber que eu tinha entrado em uma emissora de televisão mexeu demais comigo. Era como se tivesse atravessado um portal mágico. E mais: nem liguei tanto para a gravação do programa, a fagulha da minha empolgação foi a visita a emissora. Aos 10 anos tive a oportunidade de observar a rotina de quem trabalha na televisão. E saber que estive a poucos metros do telejornal que eu via na TV.

Chegamos em Suzano já de madrugada. Meus pais foram me buscar e, desde estão, eu não parei de falar um só minuto. Reportei tudo o que tinha acontecido. Sensação que jamais saiu da minha memória. Talvez esse episódio tenha sido a primeira influência para que, futuramente, eu me tornasse um jornalista.





sexta-feira, 8 de novembro de 2013

A psicóloga e o idoso

A psicóloga já estava atrasada. A previsão era deixar o escritório da empresa onde trabalha, até às 17h10. Mas quando ela se preparava para sair, um pedido de última hora apareceu. A meta agora era resolver a demanda e sair correndo. 

Até que ela conseguiu se desvencilhar do problema com uma certa agilidade, mas, mesmo assim, perdeu o primeiro ônibus. Agora o atraso era um fato concreto. Era uma quinta-feira.

A pressa da psicóloga tinha um motivo: ela precisava chegar ao centro da cidade para mais uma reposição de aula do curso de inglês. Assim que desceu do ônibus, a jovem ainda precisava tomar um outro coletivo, mas, mesmo atrasada, resolveu ir caminhando. Não sabe o motivo pelo qual resolveu fazer isso. Mas o fez.

Na hora em que ia atravessar uma movimentada avenida ela tinha duas opções: o caminho de sempre ou o que nunca fez. Segundo ela, uma força maior a fez optar pelo desconhecido. Alguns passos a frente e ela havia acabado de sentir que o motivo do atraso e da opção pela rua diferente podia ter uma razão especial. 

A psicóloga viu uma aglomeração de pessoas e um senhor com o pé machucado. Ele sangrava muito. A multidão o rodeava e o senhor, com o olhar, pedia para ser ajudado. Sem pensar em nada e muito menos na reposição das aulas de inglês, a jovem atrasada resolveu tomar uma decisão. Entrou no meio da aglomeração, pegou o velhinho desconhecido carinhosamente pelo braço e, como se fosse um ente querido, o levou para o hospital. 

O táxi chegou rápido e o atendimento hospitalar também não demorou. O médico no hospital público, por incrível que pareça, foi amável e atencioso. O senhor de pele bem branca e de aproximadamente 70 anos deixou o local com um curativo no pé e as recomendações do doutor: tomar a vacina contra o tétano e repouso.

O senhor não parava de agradecer a ajuda recebida. Ele olhou bem dentro dos olhos da psicóloga e disse. "Deus te dará em dobro tudo o que você acabara de fazer por mim". A jovem se sentiu tocada e se emocionou. Caminharam até o ponto de ônibus. Eles se despediram. Ele disse que o ônibus pára bem perto de sua casa. O senhor mora com uma filha em uma cidade vizinha.  

A psicóloga perdeu a reposição das aulas de inglês, mas diz ter recebido muito, por outro lado. A sensação de ajudar o próximo sem nada pedir em troca. A satisfação e o bem estar que acabara de invadir a sua alma. Talvez esse seja o verdadeiro significado da passagem bíblica: "Amai-vos uns aos outros". A jovem chegou em casa e contou tudo para a sua mãe. As duas se abraçaram e choraram. 

Essa história aconteceu em Suzano. A psicóloga é a minha namorada/noiva e futura esposa. Isso tudo também me tocou e por isso resolvi relatá-la aqui. Tenho uma pessoa especial ao meu lado que só me dá orgulho. E a cada dia que passa a amo mais e mais. Eu mesmo não sei se teria essa atitude. 

Isso tudo me fez refletir muito e pensar: em meio a tanta notícia ruim que vemos por aí, principalmente quando se fala em respeito aos idosos, ainda é possível ver gestos lindos e maravilhosos como esse. Acabo de falar via skype com minha namorada. Ela alterou sua definição no perfil para "Feliz, aliviada". Um ótimo dia a todos.

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Caí de paraquedas na SPFW

Olhar fixo e passos firmes. Dezenas de mulheres caminhando ao som da música e aos olhares de uma multidão. De um lado curiosidade e do outro expectativa. Eu estava do lado curioso. Eram muitas luzes e cores, lentes, microfones e glamour em forma bruta. Eu era parte da plateia que acompanhou o 1º desfile da grife Melissa no São Paulo Fashion Week na última sexta-feira, dia 1º de novembro. 


Como fui parar lá? Explico em breve. Uma coisa é certa: não sou nenhum jornalista de moda, estilista e muito menos modelo. [esta última é a mais improvável de todas as hipóteses]. Mas gostei bastante do evento.

Pela primeira vez acompanhei um desfile de modas da SPFW. Modelos caminhando pela passarela sendo crivadas de flashes fotográficos. Andei por quase todo o espaço que foi montado no Parque Villa Lobos, em São Paulo. Vi gente de vários estilos. Roupas desfiadas, calças curtas, misturas de estilos [casual, social e esportivo], óculos grandes, anos 80, cabelos cumpridos, raspados e desformes, calças de couro, estampas, jeans e camisetas. 

Vi muitos artistas: Junior Lima, irmão da Sandy, a cantora Gabi Amarantos, Sarah Oliveira [apresentadora ex-MTV], Sabrina Sato e o apresentador Arlindo Grund, do Esquadrão da Moda. 

Não entendo de moda. Apenas sei que não devo misturar xadrez com listrado, mas tenho quase certeza que na sexta-feira este tipo de figurino estava liberado por lá. Por alguns momentos me senti um peixe fora d´água, não pelo ambiente fashionista. Não por isso. E sim por estar em um grande evento na condição de convidado VIP. Não era uma pauta jornalistica. Era um passeio. E um passeio fashion.

É estranho é estar do outro lado. Assim que chegamos vi uma placa "IMPRENSA" e quase segui na direção. Por onde andava lá estavam os fotógrafos, repórteres e blogueiros do mundo da moda. Aliás, nunca vi tanto fotógrafo. Até (re)encontrei uma colega de faculdade após quase 10 anos. 


Minha irmã Rita Pires e eu no espaço lounge da Euro
Na sexta-feira eu era um jornalista convidado para um importante evento de moda. O chamamento partiu da minha própria irmã que recebeu convites da Euro Relógios. Eu era o acompanhante da convidada. Até foto tiraram de mim. 

Fiquei surpreso ao ver que, mesmo em um desfile de calçados femininos, no caso o da Melissa, as modelos foram altamente produzidas com figurinos especiais e muito bem desenhados. Era uma mistura que lembrava diversas culturas de países. As mulheres caminhavam por degraus coloridos [parecia peças de lego] ao som da banda Orquestra Voadora. Foram 13 minutos de vai e vem de modelos. No final, a famosa salva de palmas. 

Gostei da experiência de ter participado deste importante evento de moda. E agradeço à minha irmã Rita Pires por ter me convidado na condição de acompanhante e assessor de imprensa, por que não? Não precisei escrever matéria sobre o SPFW, mas ainda bem que criei esse blog para poder conceder esse relato. 

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Ilhabela, o vento e as balsas

O dia amanheceu com sol, mas por volta das 13h tudo mudou. Um vento muito forte tomou conta da ilha. O mar ficou agitado e o cenário esbranquiçado. Estávamos perto da Praia do Perequê, em Ilhabela quando alguém disse. "A balsa parou".

Pouco mais de 2 quilômetros separam os municípios de Ilhabela e São Sebastião, no litoral norte de São Paulo. É claro, levando em conta os dois pontos mais próximos entre a ilha e o continente. E os únicos meios de transporte que ligam estes dois pontos são as embarcações marítimas. A mais convencional é a balsa, com capacidade para pouco mais de 50 veículos. Sem este meio de transporte operando, ninguém entra e ninguém sai da ilha. A não ser se for por meio de transporte aéreo. E foi isso que aconteceu na tarde de domingo, dia 27 de outubro. A balsa parou.

No começo não me preocupei com o pé de vento e nem mesmo com a informação de um garoto, morador da ilha, de que a travessia de balsa havia acabado de ser interrompida por conta da mudança brusca no tempo. Tanto que durante o vendaval resolvemos almoçar. Depois disso, passamos na pousada, fizemos as malas, o check out e deixamos o local. O vento forte ainda tomava conta da cidade.

No posto de combustível o frentista caiçara me disse. "A balsa ainda esta parada e dizem que a fila de carros já está enorme. Pior que não tem previsão deste vento parar", contou o homem.

Esta foi a quarta vez que eu estive em Ilhabela. Adoro aquela cidade. Eu e minha namorada frequentamos o município desde que começamos a namorar e sempre ouvíamos comentários sobre a interrupção da balsa, em casos de ventos fortes, mas pela primeira vez estava vendo, ao vivo, o que era aquela situação.

O frentista ainda completou. "Estes dias fui levar minha filha ao médico, em Caraguá. Quando ia retornar o tempo fechou e a balsa parou. Fiquei esperando por mais de 6h para atravessar", disse o rapaz sem espanto. Com o comentário dele, percebi que quem vive na ilha ou do outro lado, e depende desse meio de transporte, está bem acostumado com as reviravoltas no tempo e a impossibilidade de entrar e sair da ilha de São Sebastião.

Depois da conversa no posto fomos ver o fim da fila de carros e nos assustamos: eram mais de 2 quilômetros de veículos enfileirados. Mas, por outro lado, a cidade não virou um caos. Muito pelo contrário. O departamento de trânsito, habituado com a situação, agiu rapidamente e foi organizando o comboio que crescia a cada minuto. A fila de veículos a espera da balsa, que cruzava a cidade, foi formada na lateral das ruas, perto das calçadas e demarcadas com cones. Havia placas por toda a cidade orientando os motoristas "FILA DE BALSA".. O trânsito não foi afetado.

Resolvemos não ficar na fila. A esperança era de que o sistema fosse restabelecido e tudo aquilo acabasse logo. Nos enganamos. A fila só crescia e a balsa não voltava a operar. Havia duas opções: voltar para a pousada e retornar somente no dia seguinte ou entrar na fila e correr o risco de passar a noite na rua.

Ilhabela, no entanto, não é só ventos e balsa. Vamos, então, falar de sua beleza principal: as praias

Praia do Curral
Acredito que a esta é a mais badalada de todas as praias da ilha. Fica do lado Sul da ilha. É bem frequentada e possui inúmeros quiosques. É uma linda praia com água limpa e areia fofa. 


Praia do Julião
O turista precisa fazer uma pequena trilha para chegar ao local, que também fica ao lado Sul da ilha. Mas, acredito, que este seja o charme da praia. A trilha de cerca de 100 metros possui uma espécie de passarela, construída com madeira. O cenário é lindo: uma trilha em meio a Mata Atlântica. A praia é tem uma extensão menor, em relação às outras. Possui grandes árvores, pedras e alguns quiosques. Vale a pena.


Praia da Pedra Miúda
Uma das primeiras praias em direção ao lado Sul e é  frequentada por mergulhadores, em sua maioria. O local ainda abriga a Ilha das Cabras. A água é bem transparente. A pesca é proibida por lá. 


Casamento na ilha
Percorrendo de carro pela (SP-131) no lado Sul da ilha em uma manhã de sábado, um cenário me chamou a atenção. Tive a impressão de ter visto uma estrutura de casamento sendo montada na areia, na Praia do Veloso. Descemos e fomos ver de perto a arrumação. Eu estava certo. Três homens [moradores da ilha] davam os últimos retoques no altar improvisado que receberia, em algumas horas, um casal de noivos da capital paulista. O casamento estava marcado para às 16h. Passamos pelo local por volta das 11h. Tudo estava sendo feito meio que no improviso, mas o que vale é a intenção. Felicidades aos noivos. 


A balsa voltou
Após cerca de 4 horas de paralisação, a balsa voltou a operar na travessia Ilhabela - São Sebastião com três embarcações naquele domingo à tarde. Mas, a essa altura, a fila de carros era quilométrica e dava voltas e voltas. A noite começou a cair e nós resolvemos retornar à pousada: que sacrifício. 

Passamos mais uma noite na ilha e deixamos a cidade na manhã de segunda-feira. Pelo que pesquisei, não existe projetos para a construção de uma ponte ligando São Sebastião a Ilhabela. Acredito, porém, que não exista essa possibilidade, já que o canal é acessado por navios de grande porte a caminho do porto de São Sebastião. 

Além disso, tem a questão do impacto ambiental. Outro agravante seria a estrutura da suposta ponte. Por isso acredito que o mais viável seja investir em mais embarcações e modernizar as existentes. Uma obrigação do governo estadual.

Na manhã de segunda-feira, voltamos a enfrentar filas pois apenas duas balsas estavam operando. A terceira apresentou problemas nos motores e foi retirada de lá. O problema continuou durante todo o dia e a média de espera foi de 3 horas. 

Mas nada disso faz com que a ilha deixe de ter os seus encantos. Quem é mais próximo de mim sabe que sou um dos maiores admiradores desse município. Ilhabela, na minha opinião, é um dos lugares mais lindos desse país. Não só por conta de sua beleza natural, mas por sua história, suas lendas e seu povo. Ilhabela, voltaremos em breve.