segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Veja como parar de fumar. [Eu parei]

Estava diante da janela da sala com a cortina e vidros abertos para fazer a fumaça escapar. Passava das 23h quando dei uma longa tragada no cigarro de filtro branco. Pensava que no dia seguinte tudo seria diferente. Esse foi o último cigarro que fumei, no final da noite do dia 25 de janeiro de 2010. Desde então, nem mais uma tragada. São 4 anos sem a substância.

Fui um adolescente que nunca dei muita bola para esse negócio de cigarro. Meu pai fumava [ex-fumante]. Meu irmão mais novo dava umas tragadas por aí [ele ainda fuma], mas eu não ligava muito. Porém, no final dos anos 90, encasquetei que queria aprender a tragar. 

Já tinha uns 18. Queria saber soltar a fumaça e passei rápido por esse exercício fácil. No começo dá até tontura. Fiquei nessa de fumar de vez em quanto uns 6 meses. Entrei na faculdade e antes de aprender Metodologia Científica já era um fumante. No ano seguinte estava fumando quase um maço por dia. 

Quem fuma sabe. O falso bem estar inexplicável não vem apenas do ato de tragar aquela fumaça tóxica. O cigarro é o companheiro de mentira em horas felizes, tristes e agitadas. Se espera alguém: fuma. Se a pessoa chega: fuma. Se termina um trabalho: fuma. Se vai começar um trabalho: fuma de novo. O ato de fumar se envolve na rotina do viciado. Por isso que é realmente extremamente difícil abandonar isso. Você sente a falta da droga na corrente sanguínea e também sente a falta da companhia do cigarro nas coisas que fazia com ele. [só fumantes e ex-fumantes entenderão 100% essa passagem do texto]. E se eu ainda fumasse, talvez daria uma pausa agora para acender um.

Não sou chato ex-fumante, daqueles que gostam de palestrar diante dos que ainda usam a substância. Quem quer fumar, fume. Falo que consegui parar com muito prazer, mas somente se houver um momento oportuno. Não ligo para o cheiro da fumaça. Ela nunca me incomodou e, mesmo depois da separação, não ligo de estar ao lado das pessoas que fumam. 

Pois bem. Depois de anos ao lado do cigarro a vontade de parar começou a piscar no painel. Em 2003, cheguei a ficar 6 meses sem fumar, mas acabei voltando. É que não adianta os outros quererem. Quem toma é decisão é quem fuma. No final de 2009 fiz um check up e o médico disse: "Douglas, você está ótimo, não tem nada. Vai esperar ter alguma complicação para largar o cigarro?". Aquela frase martelou na minha cabeça de forma cadenciada durante um tempo. Como uma bate estaca da construção civil.

Parar de fumar não é como deixar de comer algo que você gosta. É diferente de não ir mais naquele bar que você ama. Não é igual desistir de um curso que sempre quis fazer. Nada disso. Abandonar o vício é deixar de consumir algo que o corpo pede de forma gritada. 

Mas é possível parar de fumar. Claro que é. Depois que saí da sala do médico a ideia de parar com a droga ficou na minha cabeça. Só precisava elaborar um plano para isso. Era meados de setembro de 2009 começava a me preparar e fixei uma data. Pensei comigo: fumarei até o dia 25 de janeiro do ano que vem. Depois disso, não mais. E sabia que esse dia chegaria. Depois do Natal e Ano Novo logo veio a noite do dia prometido. E lá estava: eu e ele. Fumei o último cigarro como se estivesse despedindo de alguém que não queria mais ver. [vai embora, será melhor para mim]. Essa era a pegada. 

No dia seguinte as pessoas logo perceberam que eu não mais mantinha mais entre os dedos aquele pequeno cilindro de papel nocivo. Os dois meses seguintes foram difíceis. Muito difícil. A abstinência dói. Mas é como atravessar uma turbulência, uma tempestade, uma noite escura... uma hora acaba. E quando passa você sente uma satisfação imensurável.

Um ex-fumante sempre lembrará que já foi fumante, mas dá pra conviver com isso numa boa. Dá vontade as vezes, mas é algo fácil de lidar. Como se fosse vontade de comer lasanha. Se não tem, não come. Dá para viver sem lasanha. 

A pior parte é que engordamos. O alimento fica mais gostoso. No entanto, muitas vezes mantemos alguns rituais da época da droga. Por exemplo, trabalho com alguns fumantes e ainda frequento o fumódromo para papear e descontrair. Eles fumam e eu como uma banana.  

Depois de atravessar a dolorosa separação até parece que foi fácil. Tomo café e cerveja e nem lembro que ele existe. Mas não foi fácil. Por isso sempre digo aos mais novos e as pessoas que estão nessa de aprender a tragar, como eu fiz um dia. O caminho mais fácil para largar o cigarro é nunca fumar. Estou livre há 4 anos. 

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

O fenômeno La La La Dog

Era uma terça-feira. Minhas férias estavam chegando ao fim e resolvi ligar o computador para acessar o portal de notícias onde trabalho. Li a matéria que ganhava destaque na página naquela manhã do dia 29 de outubro. O desenho do cão colorido me despertou interesse e a história do artista me fascinou logo de cara. 

Já tinha visto a arte do rapaz em alguns muros de Mogi das Cruzes no embaralhado meio urbano, mas não botei muito reparo. Porém, lendo o texto, percebi que aquilo tinha uma razão. O amor verdadeiro entre o cão e seu dono. Havia acabado de ser apresentado ao La La La Dog. Uma manifestação artística em homenagem à cachorra [falecida] do grafiteiro. A dogue alemã, Dalila.

Basta dar umas voltas por Mogi das Cruzes com atenção voltada aos muros e fachadas abandonadas. Não é difícil de encontrar. Trata-se de um desenho feito com tinta spray. A figura é de um cachorro de porte grande. São várias as cores. Tem La La La boiadeiro, prateado, Papai Noel, azul e rosa, verde, preto...

E o cão foi adquirindo popularidade. Foi ganhando admiração não só de crianças, mas de muitos adultos, inclusive eu. Em Mogi existe um grupo de amigos que sai à “caça” dos La La La Dogs. O objetivo é fotografar a arte urbana. Melhor ainda é sair na foto ao lado do cão mais famoso de Mogi. E além da região, o artista já deixou sua marca em São Paulo, litoral paulista e até em Porto Alegre.

No dia 25 de dezembro me surpreendi com uma ilustração em Suzano, talvez a primeira marca dele na cidade. Na cor azul, em uma porta de ferro... lá estava a arte. Fotografei e contei a história para a minha noiva que também ficou fascinada. O imóvel estava para alugar e pertence a uma pessoa conhecida da minha família. O desenho não teria agradado num primeiro momento, mas ao tomar conhecimento da história, La La La Dog ganhou mais fãs suzanenses.

E a fama do cão colorido só faz aumentar. A primeira exposição foi marcada no shopping de Mogi das Cruzes. Conversei com o artista Jaum por telefone [não o conheço pessoalmente] para uma matéria jornalística. Sujeito calmo, de fala tranquila e feliz com as coisas boas que a arte lhe proporcionou.

A imagem da cachorra Dalila nos muros velhos de Mogi das Cruzes reflete um pouco do amor que muitos sentem por seus animais de estimação. Eu estou nesse grupo de apaixonado por cães. São os seres mais puros e verdadeiros que conheço [característica rara entre os humanos]. E é por isso que a Dalila merece toda essa exaltação espontânea que vem das ruas. E o Jaum, artista que passei a admirar, tem todo o meu respeito.

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Sem saída

Meu carro não tem ar condicionado. Então conto apenas com a abertura das janelas. O ar circula enquanto o veículo desliza sobre o escaldante asfalto dos dias quentes deste janeirão de 2014. Sabe aquele horizonte de piche derretido? A máquina sofre, o ponteiro da temperatura logo alcança o máximo e a ventoinha se desdobra. 

Depois do almoço os termômetros tinham acabado de passar pelos 30. O trânsito seguia normal e, no céu, as primeiras cumulus nimbos já estavam estacionadas. "Pode ser que chova mais tarde", pensei. 

Descobri que dirigir com a janela aberta é prejudicial à saúde. Meu braço esquerdo não parece ser da mesma pessoa que ostenta o membro superior direito. Um é quase negro. O outro moreno claro. O braço canhoto é alvo constante dos raios ultravioleta, pensei. Protetor solar é a solução. E quando esqueço dirijo com o braço ligeiramente recolhido. Neste dia eu esqueci e somente lembrei quando o trânsito já estava parado há 5 minutos.

Trânsito parado pode ser reflexo de semáforo demorado ou até excesso de veículos à frente. Se o tráfego continua estagnado por mais de 5 minutos, na minha opinião, é sinal de que algo pode ter acontecido. Estar na inércia por mais de 10 é ter certeza que existe algo de errado.

Ficar estacionado no meio da pista em uma fila de carros aguça a curiosidade. É normal pensar no que pode ter ocorrido lá na frente. Acidente? é sempre a primeira opção que estala na mente. Só que uma caminhonete à minha frente conseguiu subtrair meu campo de visão do horizonte de automóveis.

O sol ainda era forte, mas outras nuvens de chuva faziam companhia às primeiras cumulus. Eu estava na faixa da esquerda e do meu lado direito chegou um caminhão pesado que começou a expelir fumaça preta na minha direção. Fechei a janela direita. O calor aumentou em questão de segundos. Pensei: "Tenho que sair daqui", imediatamente.

Já estava parado no mesmo lugar por mais de 15 minutos Alguns motoristas desligaram o motor. O caminhão não. Pois bem, dei seta à direita, consegui sair da pista e entrar no bairro. A impressão é que todos os carros tiveram a mesma ideia. Sendo assim: bairro e a avenida engarrafados. O tempo fechou e a chuva pesada era questão de minutos. 


Pois bem. Todos os carros que optaram por cortar caminho pelo bairro teriam de voltar para a pista. Um rio com nome de cidade, logo à frente, era o limite. Resultado: tudo travado. Pista, bairro e acessos à pista. Parei em um posto de combustíveis e desci para comprar uma água. A chuva veio forte e pesada. Eu já estava atrasado. 

Tudo virou um caos. Consegui cortar caminho pelo bairro e pulei uns dois quilômetros de engarrafamento pelos trepidantes paralelepípedos. No entanto, tinha de voltar para o caminho de origem. Após mais de 10 minutos aguardando para entrar na pista, consegui. A chuva refrescou o ambiente e a impressão era de que estava prestes a descobrir o causador do grande engarrafamento.

Ingressei em um trecho de subida exigindo bastante da embreagem, no famoso anda e pára, e logo vi o que tinha bloqueado o único corredor de veículos que liga duas cidades com seus quase um milhão de habitantes. Quem vive em Suzano e trabalha em Mogi, como eu, ou vice-versa, conta apenas com um único caminho.  

A famosa, velha e saturada SP-66. Uma pista que há décadas serve de ligação entre as duas cidades. Desde quando se ter um carro era o luxo do luxo.

Minha opinião e de boa parte de quem depende da estrada é uma só: é preciso mais um caminho, pelo menos, para dar conta da alta demanda. Não precisa ser um especialista em mobilidade urbana ou um gênio na área do transporte para enxergar isso. Os anos passaram, projetos são apresentados, mas na prática a coisa não anda. 

E mais uma vez, um caminhão quebrado na altura da Coca foi capaz de atrasar a vida de centenas de pessoas na tarde da última segunda-feira, dia 13 de janeiro. A SP-66 continua sendo a única ligação entre duas cidades. Quem vai dar jeito nisso? Quando? 

Dá próxima vez acho mais fácil comprar um carro com ar condicionado. Com o vidro fechado, a fumaça preta do caminhão não vem direto na minha cara. 

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Meu primeiro dia do ano

Tenho 36 anos. Não tenho filhos. Existe idade certa para ser pai? Me peguei pensando sobre isso recentemente. Surgiu no dia 1º de janeiro. Nesse dia acordei cedo. Era plantão na "firma" [minha futura esposa odeia que eu use esse termo]. Estava cheio de sono, afinal, no dia anterior a festa com a família foi intensa. 

Passava da meia noite e ainda era cedo para cair na cama. Cedo por conta das comemorações em andamento. Cedo por causa do calor. A impressão era de que o Sol estava escondido embaixo da minha cama.

Não sei o que anda acontecendo. A pessoa mais indicada para explicar esse calorão fora do normal é a minha colega Desirré Brandt. Ela não tem culpa, mas não gosto de ouvi-la dizendo na rádio: "E nada muda, o calor deve continuar em SP". Saudade da massa de ar polar.

Consegui me desligar quando já passava das 2h30. O último estampido de fogos 12 tiros que ouvi foi às 2h21. Nem foi o estouro que me despertou. E sim o granido da cachorra que sofria desde às 17h com os estouros. O olhar dela era de pânico. Meu pai virou o ano no quintal fazendo companhia para a pequena cachorra de pelos pretos chamada Chanel. Não gosto dessas bombas, pensei. Depois disso, peguei no sono.

Despertei sem problemas pela manhã. E rapidinho já estava na estrada. No caminho para o trabalho não havia carros na rua. E poucos pedestres. Parava no semáforo e um silêncio fora do comum vinha de fora. Nada igual o cenário urbano de um dia útil. Procurei um lugar para tomar café, mas quase todas as padarias estavam com as portas fechadas. Fui seguindo meu caminho. 

Achei uma quase chegando ao trabalho. Estacionei o carro e notei que havia um menino sentado bem na porta do estabelecimento. Camisa preta de banda de rock, jeans e All Star. Acionei o alarme do carro e, quando caminhava em direção a porta da padoca com chave, carteira e celular nas mãos, ele me perguntou. "Senhor, posso tomar conta?". Fiz sinal de positivo.

Dentro do estabelecimento eram poucas pessoas no balcão, menos ainda atendendo. Mesmo assim tudo foi rápido. Tomei um café reforçado. Lembei que levava dois refrigerantes de dois litros no banco traseiro do carro. Era o ingresso para o almoço de ano novo que seria armado no refeitório da TV, logo mais. Cada um levou um prato salgado, sobremesa ou refrigerante.

Na fila de caixa separei R$ 1 para o menino que prometeu guardar o veículo. Paguei no débito, guardei o cartão, perdi o ticket recibo que os economistas nos orientam a guardar. Enfiei carteira e celular de ponta cabeça no bolso. Acionei o alarme. E o menino surgiu. Dei a moeda e ele agradeceu dizendo algo que ficou na minha cabeça: "Obrigado, feliz ano novo para o senhor e para os seus filhos". Entrei no carro às 8h40 e fui enfrentar o primeiro dia de trabalho de 2014. 

sábado, 28 de dezembro de 2013

O ano termina. E nasce outra vez.

Foi tentando desativar o touchpad do notebook na manhã do último dia 27 de dezembro que comecei a lembrar dos fatos e notícias que alimentaram 2013. Um ano produtivo, cheio de alegrias e desafios. Voltei mais no tempo e lembrei ainda do Natal e Ano Novo de 1994. Não sei o motivo. Mas vieram as músicas do CD especial de Natal da cantora Simone na cabeça. Quem não se lembra do "Então é Natal".

Bons tempos. Naquele ano eu e meu irmão trabalhávamos em uma papelaria na Rua Benjamin Constant, no centro de Suzano. E durante o mês de dezembro este CD natalino cheio de refrãos marcantes tocou todos os dias na loja. Das 8h às 22h. Só deram "stop" por volta das 19h do dia 24. 

Durante o mês de Natal ele ficou no modo repeat. O que era bonitinho no começo virou tortura. Mesmo assim tenho saudade daquele ano. Aos 17 vi o Brasil ser tetracampeão. No ano seguinte me alistei no exército e enfrentei mais dificuldades nas aulas de física e matemática no 3º colegial.

Adoro lembranças e retrospectivas. Já disse aqui no blog. Escrevi sobre cheiros que me levam de volta ao passado. E tenho uma memória boa para garimpar certos detalhes de épocas passadas. Ainda em 1994, no dia 31 de dezembro, nós, funcionários da papelaria, lavamos a loja. Esfreguamos o chão com sabão e usamos muita água no enxágue. Era a sensação de fechar o ano com a consciência tranquila. 

Penso que isso seja o mais importante. Chegar ao final dos doze meses com a cabeça sossegada. Dívidas, quase todos nós temos. Mas não estou falando de pendências financeiras. O legal é ficar em paz. E se for para fazer o bem que seja o ano todo. Em pequenas ações. 

Alguns fatos me marcaram durante este 2013, ou melhor, duas reportagens que fiz. Imagina um casal que tem a primeira filha criada com amor e carinho. De repente, essa criança adoece e o diagnóstico é arrebatador: câncer no cérebro. A menina lutou contra a doença, mas acabou morrendo cerca de um ano depois. 

No entanto, a partida da filha acendeu a luz da caridade sincera nos pais. Pai e mãe, com o coração dilacerado, se tornaram voluntários em uma associação que cuida de crianças com câncer. E mais: fundaram um grupo e, vestidos de palhaços, visitam escolas e hospitais. A dor deles virou combustível para ajudar outras crianças doentes. Carina e Carlos admiro vocês. Quem quiser ler a matéria, basta clicar aqui. (não é vírus não, rs)

Outro fato que me chamou atenção em 2013 ocorreu já quase no final do ano. Foi quando conheci um Papai Noel de verdade. Não pela barba branca, roupa vermelha e o sininho. Não por isso. E sim pela bondade, felicidade e amor que ele distribui gratuitamente. É o seu Thomaz Fidalgo. Construiu um trenó adaptado sobre o chassi de um Fusca. E com o veículo especial sai às ruas de Suzano levando presentes e doces às crianças carentes. E a doação dele dura o ano todo. Longe da época de Natal, ele faz campanha dentro da pastoral da criança. Estive na casa desse senhor e, desde então, passei a acreditar em Papai Noel. Link da matéria 

E 2013 termina já já. Será lembrado como o ano das manifestações, do futebol campeão das Confederações e do Papa Francisco arrastando multidões. Em janeiro começa tudo de novo. Como diz a cantora Simone na conhecida canção "o ano nasce outra vez". Tenho o sentimento de dever cumprido, como o chão da loja lavada. Mas ainda tenho que desativar o touchpad do notebook. 

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Papai Noel no verão brasileiro

Lá vai ele sob o insano calor e agasalhado até a garganta. Eis o Papai Noel brasileiro. É justo o bom velhinho tupiniquim ter de derreter dentro do traje típico do polo norte em pleno o dezembrão com clima senegalês que vivemos por aqui? Todos os anos me pergunto isso. Acho que eu nunca seria Papai Noel por causa disso. 

Sou uma pessoa que sofre demais com o calor. Já relatei isso aqui no blog. Sou do tipo que idolatro o ar condicionado. Penso eu que não há como se defender das garras do verão. Vejamos. Com um frio de zero grau podemos vestir duas luvas, cachecóis e touca. E sob um sol de 40º? Só se ficarmos mergulhados em um recipiente com água até o pescoço e com pedras de gelo. Agora imagina o Noel e seu figurino?


O bom velhinho no Brasil tem de se cobrir como se estivesse gelo, sorrir pra criançada, tirar foto, e ver a neve de mentira cair na vitrine quente, enquanto no asfalto do estacionamento do shopping, lá fora, dá até pra fritar ovos no chão. Estes dias vi uma reportagem sobre um Papai Noel que recorre ao ventilador para trabalhar sob os 40º do Acre. Ele desenvolve sua função sentando e, bem ao lado, mantém o aparelho ligado no último. O forte vento esvoaça sua barba artificial e traz um frescor de mentira.

Agora, e se o bom velhinho viesse do Hawaí. Tatuado e de camisa florida?. Continuaria com as barbas brancas e manteria o ho, ho, ho. Nada de trenó e sim prancha de surf. Nada de renas. Ele poderia até usar um velho bugue vermelho para entregar os mimos. Regata, chinelos de dedo e óculos escuros.
Seria ótimo para nós. Papai Noel do litoral. E o velhinho queimado do Sol percorreria fácil pelo comércio da 25 de março, em São Paulo, ao meio-dia. Ficaria leve em Goiás e não se incomodaria com o sol quente de Manaus. Bastava aplicar o protetor solar. É claro que não seria a mesma coisa. Pensando bem, acredito que existem coisas que só são como são porque sempre foram como são. E não seriam se fossem diferente de como são. (pessoal, eu estou são escrevendo isso, ok?)

Não adianta. Papai Noel tem de ser do Polo Norte mesmo e continuar sofrendo no calor aqui no Brasil como o figurino. Certa vez durante a produção de uma matéria eu perguntei a um Papai Noel sobre o calor intenso de ficar com aquela roupa quente. E ele respondeu que o olhar e o sorriso das crianças lhe refrescavam o espírito e o corpo. É, ele tem razão. E se um dia minha esposa pedir para eu me vestir de Papai Noel para o meu filho [quando eu for pai], com certeza, eu o farei em pleno calor de dezembro. Feliz Natal a todos.


segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

O segundo melhor presente de Natal

Eu quis ganhar um ônibus de Natal em 1986. E ganhei. Foi o segundo melhor presente que Papai Noel me entregou. [só perdeu para o Atari, em 1987]. A réplica de um modelo de turismo era feita de lata, alumínio e plástico. Devia ter uns 80 centímetros de comprimento. O meu era da empresa Itapemirim e meu irmão virou dono de um coletivo da Expresso Brasileiro. Eram iguaizinhos aos de verdade. O corredor da minha antiga casa se tornou uma enorme avenida, devidamente pavimentada pelo felpudo carpete marrom claro e fiscalizada pelos olhares dos meus pais que refletiam a alegria dos filhos.

Citei o bom velhinho no começo do texto, mas a essa altura, aos 9 anos, eu não mais acreditava que os presentes das crianças do mundo inteiro eram, realmente, entregues por ele. Por isso pedi diretamente aos meus pais o tal ônibus. Nada de escrever carta para Noel.

Depois de um tempo desconfiei que os dois ônibus de brinquedo [meu e do meu irmão] foram comprados em outubro daquele ano. Minha investigação começou quando chegou o informativo de que não teríamos presente no dia das crianças. Sabia que o tal ônibus era caro e que meu irmão iria ganhar um igual. A investigação prosseguiu. 

Não questionei meus pais diretamente, mas, num certo dia, como que se estivesse munido com um mandado de busca e apreensão, eu revirei os possíveis locais onde os dois ônibus deviam estar ocultados.

Era uma tarde. Dia de semana. Minha mãe devia estar lavando o quintal. A TV ligada e eu vasculhando um dos quartos. Fui direito ao ponto. Estava embaixo de um monte de panos [se não me engano] dentro do guarda roupas.

Os veículos eram mantidos dentro de uma embalagem de papelão. Abri uma frestinha e toquei os dedos sobre a lisa lataria. Lembro do cheiro do brinquedo. Foi um momento de muita alegria. Era a certeza de que os ônibus viriam no dia 24 de dezembro. Não me lembro se revelei ao meu irmão, com 6 anos, o resultado da investigação. Também não tenho recordação se meus pais souberam disso. Enfim, acho que, no fundo, sabiam que eu sabia. 

Dia 24 de dezembro amanheceu chuvoso e nublado. Os dois veículos estavam embrulhados e estacionados aos pés da árvore. Rasgamos os papéis e os veículos saíram em alta velocidade. Chovia lá fora, mas na avenida imaginária por onde os ônibus circulariam predominava o clima que nós desejássemos. Perto da porta da cozinha era o ponto final. Não havia terminal rodoviário. Eles percorriam o longo corredor até o último quarto e voltavam. Nessa estrada não havia acidentes, imprudência no trânsito e os atraso nas viagens. Eu e meu irmão brincávamos por horas a fio com os veículos novinhos, literalmente, cheirando a tinta.

Assim como nos coletivos de verdade, os nossos ônibus prestavam serviço por todo o País. Eram empurrados sempre pelo mesmo carpete: o corredor da minha antiga casa. E como criança é especialista em imitar ronco de motores, conosco não era diferente. O ruído que vinha do peito infantil e escapava pela boca pequena narrava a arrancada, o aumento de velocidade e a estabilidade na estrada aos 80 km/h. Variava do grave ao agudo, no momento da frenagem. E nessa caravana da imaginação os ônibus passaram pelo Piauí, Pernambuco, Santa Catarina e rodaram muito em São Paulo.

A viajem, às vezes, era interrompida por minha pequena irmã, na época com 2 anos, que tinha recebido uma boneca de Natal. O problema é que ela também queria um ônibus. Não para empurrar, mas para andar sentada em cima. E por causa disso teve muita confusão. 

Virei fã dos ônibus de turismo naquela época e, num certo dia, meu pai nos levou ao Terminal Rodoviário do Tietê para conhecer os possantes movidos a diesel. Descobrimos que nossos ônibus existiam de verdade. Aquilo fortaleceu a minha imaginação e deu credibilidade à brincadeira que seguiu por anos e anos. 

E no Natal de 1986 o dia seguiu nublado. Papai Noel não entrou pela janela da minha casa. Nem deixou os ônibus dentro de meias. Mas tive a certeza que o espírito dele estava presente. Como ainda está, em todos os natais, ao redor da minha família, na nossa árvore piscante, no presépio e em cada um de nós que acreditamos no espírito de Natal. Papai Noel existe, com certeza.