sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Fui uma "Viúva Virgem" em 1998

O tempo estava abafado então o batom começou a derreter rapidamente. Passava das 20h e o fato de estar atrasado não me deixava escolher os brincos e o colar que usaria naquela noite. A pressa me fez vestir o vestido estampado em 15 segundos. Calcei a rasteirinha, peguei um óculos escuros, encontrei com os amigos e juntos descemos a Rua Tiradentes, a caminho do centro de Suzano. Era um grupo de jovens vestidos de mulher rumo à concentração do Bloco "Viúvas Virgens", no carnaval 1998. O último ano em que a festa popular foi realizada na Rua General Francisco Glicério.


Foto: Rita Pires
O bloco conhecido por arrastar centenas de homens vestidos de mulher se preparava para mais uma noite de desfile. Nosso grupo formado por seis jovens suzanenses estava lá. Minha irmã e as amigas dela ficaram atrás do cordão de isolamento com a missão de tentar nos fotografar. Estavam com uma Yashica manual, munida com um rolo de filme Fuji colorido de 24 poses.

Naquela época, os desfiles carnavalescos em Suzano aconteciam nos 4 dias. Sábado eram os blocos e domingo as escolas. Depois essa sequência se repetia na segunda e terça. Mas o nosso desfile era foi em uma segunda-feira. Passava das 20h30 e lá estávamos na concentração, pouco antes da Praça dos Expedicionários.

O mais interessante no bloco era o espírito democrático. Desfilava quem tivesse vontade. Bastava aparecer com trajes femininos e se juntar aos outros [outras] na concentração. Não existia samba enredo. E o primeiro carro sempre satirizava o cenário político atual da cidade. Ali era exposta a criatividade do criador do bloco: o suzanense Américo Xavier. Um figuraça, amante do carnaval. 

E assim que a sirene tocava as viúvas desciam a Glicério de peito aberto. Eita tempo bom. O público as aguardava com empolgação. E a bagunça tomava conta da rua mais conhecida da minha cidade. Me lembro o quanto era engraçado ver advogados, empresários, comerciantes e operários de Suzano vestidos de mulher. O mais gostoso no desfile era a participação do público que sempre interagia com travestidos. 

E o nosso grupo debutava naquela festa democrática em 1998. Não havia brigas e confusões. Era só brincadeira e descontração. O desfile terminava lá na Praça João Pessoa (a segunda praça, como dizem os suzanenses). E a festa continuava até o final dos desfiles na passarela do samba.

O grupo subia a Rua Benjamin (paralela à Glicério). Era o caminho de volta à folia. Em pouco tempo já estávamos livres das roupas femininas e prontos para continuar curtindo o carnaval. Minha tarefa, naquele dia, era encontrar minha irmã para saber se ela tinha conseguido me fotografar no meio da bagunça. 

As fotos foram feitas, mas só saberíamos o resultado depois da quarta-feira de cinzas. Era o antigo processo (revelação). E para falar verdade, até que era gostoso ter de esperar o resultado das fotos. Pois bem, botei fé que pelo menos um retrato sairia daquele rolo de filme. Fotografar em meio a arruaça que as viúvas promoviam no centro era uma missão meio que impossível.

Na ressaca de carnaval o resultado: fotos inéditas. Foi um sarro entre os amigos e familiares. Os retratos eram passados de mão em mão. Depois colocados em álbuns e arquivados em armários. Muito diferente da maneira como lidamos com fotos no mundo digital de hoje, com Facebook e Whatsapp. E como no carnaval tudo é festa, após 16 anos, resolvi publicar um desses retratos para comemorar. A foto abaixo é inédita. É a lembrança do último da Rua General Francisco Glicério.
Foto: Rita Pires

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Cenourinha e batatinha

Foto: Google Imagem
Quando criança eu adorava ficar prestando a atenção no movimento dos trens. Passávamos de carro nos arredores da linha férrea, no começo da Avenida Brasil, em Suzano, no sentido Poá e eu sempre torcia para o trem passar. Ainda não havia esses muros de concreto de hoje que nos impede de ver o que acontece na linha férrea. Eu torcia para que a passagem de nível fechasse na hora em que íamos cruzar os trilhos. De dentro do carro eu observava ao máximo aquele longo veículo trafegar pelo caminho de ferro. Suzano tinha uma passagem dessa no final da Avenida Roberto Simonsen, que foi extinta após a construção do viaduto Ryu Mizuno.

Eu tinha uns 8 anos. Apelidava os trens de “cenourinha” e “batatinha”. As velhas composições pertenciam a Companhia Brasileira de Trens Urbanos (CBTU) que controlava o transporte ferroviário em SP naquela época. Cenourinha, eram os trens com detalhes alaranjados. Batatinha os amarelos. Hoje em dia nem imagino qual apelido as crianças dariam aos trens. Aliás, nem sei se as crianças de hoje tem tempo para observar trens. 

Havia um estigma na época: andar de trem é perigoso. O transporte público ferroviário era rodeado de histórias de violência. Vândalos costumavam atirar pedras nos vagões, que quase sempre circulavam de portas abertas. Lembro dos “surfistas de trem” que arriscavam a vida no teto dos vagões, dividindo espaço com a linha de alta tensão. 

Diferente de hoje, as composições andavam no limite da capacidade somente nos horários de pico. Esse foi o argumento usado por mim quando pedi para meu pai nos levar [eu e meu irmão] para andar nos velhos carros da CBTU. Quando tinha uns 10 ou 11 anos cismei que queria viajar nos vagões. Tinha muitas dúvidas: de onde os trens vêm e para onde vão. Como é dentro das estações e dos vagões. Meu pai respondia o que dava e eu me convencia com os argumentos dele. Nas férias escolares de julho, no final dos anos 80, embarcamos na Estação de Suzano, sentido São Paulo.


Foto: Google Imagem
Lembro da grande escadaria [que ainda era de madeira]. Na plataforma ficamos aguardando a chegada do trem, que na naquela época passava de 20 em 20 minutos. Recordo que olhava fixamente para os dormentes fixados no chão sobre pedregulhos. Observava as pessoas e a voz do alto falante. O trem apontou lá longe, do lado direito, fazendo uma curva e logo chegou à plataforma. Embarcamos sentido São Paulo. 

O teto era alto e não tinha como segurar naquelas antigos ganchos. Achei estranho o balanço nos vagões e aquele barulho cadenciado, porém, o que mais me chamou a atenção foi o movimento dos ambulantes. A fala estridente dos vendedores oferecendo produtos de forma repetitiva. Fomos até a Estação Artur Alvim. Desembarcamos e ficamos aguardando o outro trem para retornarmos a Suzano. Do lado de fora da estação havia uma movimentação de operários. Na época, meu pai me explicou que se tratava da construção de uma linha metrô. Eram as obras da linha vermelha. 

A volta foi ainda mais interessante, pois sem a carga de ansiedade, pude observar ainda mais o caminho feito pelo trem. Retornei a Suzano satisfeito pela viagem. Foi a realização de um desejo. 
Só que a viagem de trem me levou a outras três vontades: andar de metrô, ganhar um Ferrorama e outro que eu ainda não realizei. Meu terceiro desejo é viajar na cabine do maquinista. Quem sabe um dia, rs! 

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

No lugar certo, na hora certa.

Dia 30 de julho de 2003. Às 10h, eu, que era repórter da Rádio Metropolitana AM, em Mogi das Cruzes (SP), estava no gabinete do prefeito de Suzano em uma pauta comum. Nada de tão importante. No mesmo dia, às 18h30, eu falaria ao vivo para todo o Brasil no link da TV Bandeirantes com o apresentador José Luiz Datena. Motivo: às 13h eu estava no lugar certo, na hora certa. Virei notícia.

A história começa no dia 4 de junho daquele ano quando um jovem empresário de Suzano foi sequestrado nos arredores do shopping deste município. O centro de compras, na ocasião, pertencia à sua família. Era uma época em que os grandes sequestros assolavam o Estado de São Paulo. Tanto que, anos atrás, o irmão da dupla Zezé de Camargo e Luciano também havia sido mantido em cárcere. No caso do irmão dos cantores e do jovem empresário de Suzano, os sequestradores chegaram a decepar parte da orelha das vítimas. 
Durante o sequestro em Suzano, parte do órgão foi enviado à família do empresário com uma carta escrita por vítima e um pedido de resgate. 

O final da história, no entanto, começou a se desenhar quando um dos integrantes da quadrilha foi preso na cidade de Poá. O restante do bando soube da prisão do comparsa e a vítima foi libertada na Rodovia Régis Bittencourt, no dia 30 de julho. Às 10h, quando eu estava no gabinete do prefeito de Suzano, naquela pauta não tão importante, a informação sobre a libertação do empresário explodiu. E rapidamente se tornou um dos assunto mais comentados nos quatro cantos da cidade durante a manhã.

Colegas da imprensa do Alto Tietê foram para São Paulo, pois o delegado responsável pela investigação daria uma entrevista coletiva. Além disso, a vítima, que tinha recebido cuidados médicos em SP por estar bastante debilitada, também poderia prestar depoimento e falar com os repórteres. Mas a coisa começou a mudar.

Minha chefe na época, a jornalista Marilei Schiavi, ordenou que eu ficasse em Suzano. Fiquei puto, num primeiro momento, mas... Eu era um jornalista novo, estava há 6 meses na profissão e queria muito ver tudo aquilo de perto. Minha vontade era ir para a capital para acompanhar a coletiva. Logo depois, a imprensa de SP deu imagens do empresário deixando o hospital na capital coberto com um pano. Sendo assim, ninguém viu o seu rosto, já que os comentários eram de que o sequestrado estava com a barba comprida e bastante magro. Isso causou uma curiosidade imensa nas pessoas. O empresário deixou o hospital e ninguém soube para onde ele foi. Pois bem, fiquei no estacionamento no shopping da cidade tentando repercutir a soltura da vítima com alguém da família. Ninguém queria falar. Resolvi permanecer nos arredores do shopping e, além disso, tinha que entrar ao vivo a todo momento com informações do caso. Sentei em uma sombra e comecei a anotar o que iria falar em breve.

Entretanto, no começo da tarde a sorte começou a virar para o meu lado. Uma movimentação suspeita tomou conta do estacionamento do centro de compras. Viaturas da Divisão Antissesquestro chegam ao local. Estacionaram os carros e formaram um quadrado com aquela fita zebrada. Eram agentes fortemente armados. Olhei para o alto e vi um helicóptero sobrevoando o céu de Suzano em um dia de sol e tempo aberto.  

A aeronave pousou rápido e eu pude ver o empresário em seu interior. A emoção tomou conta do jovem repórter. Imediatamente entrei ao vivo dando a notícia. Não me lembro direito como falei, mas estava muito empolgado e com a adrenalina a mil. O empresário estava realmente bem mais magro e com uma barba comprida. Bastante debilitado, ele fez sinal de positivo, mas gesticulou que não queria falar. Fiquei bem próximo dele. Foi um dos maiores furos jornalísticos da minha carreira. Logo, o empresário entrou em um carro e deixou o local. Ele foi levado para casa. Com as pernas moles pensei: "o que foi que eu fiz?

Para a minha imensa surpresa, horas depois emissoras de TV de São Paulo [Record e Band] me ligaram para saber como o empresário estava. Todos me diziam. "Cara, você foi o único jornalista que viu o sequestrado". Queriam saber se eu tinha feito alguma imagem dele. Não havia registro, mas mesmo assim, os produtores das emissoras me perguntaram se eu poderia falar ao vivo no link mais tarde. Celulares ainda não fotografavam. Redes sociais não existiam. Meu gravador funcionava com uma fita cassete.

No final da tarde a imprensa de quase todo o Brasil estava diante do prédio onde o empresário morava no centro de Suzano. Emissoras de rádio, jornais e TV. Dei entrevista para a CBN e fui destaque na edição do dia seguinte do Diário de Suzano, em uma matéria da colega Alessandra de Assis. A Rádio Metropolitana também fez um editorial baseado na minha saga. O jornalista que virou notícia, rs! O link da Record não fechou por problemas técnicos, e o repórter Gerson de Souza me pediu desculpas. Entretanto, falei para todo o Brasil com o apresentador Datena em uma entrevista que ainda contou com a participação do repórter Figueiredo Junior. Não tenho registro disso, mas me lembro que foram cerca de 10 minutos de bate papo. Datena queria saber detalhes de como o empresário estava. 
Foto: Reprodução (Aquivo Diário de Suzano)
Eu [de preto] no link. Foto: Francisco Alvarenga DS/Arquivo
A imprensa permaneceu de plantão nos dias que se seguiram, diante do prédio do empresário. Para mim aquilo tudo era muito novo e fascinante, afinal, estava há 6 meses trabalhando como repórter. Fiquei deslumbrado. Fiz ótimas amizades e aprendi demais naquela semana. Vi, na prática, realmente, como era uma grande cobertura jornalística. O que mais me recordo são as brincadeiras e conversas. Um bando de fotógrafos, repórteres e cinegrafistas "vivendo" na calçada de um prédio residencial. Como não existia internet sem fio e muito menos 3g, os contatos com as redações eram constantes. As rádios de notícia ficavam sintonizadas durante todo o tempo. Era a única fonte de notícias. A calçada do prédio se transformara em uma sala de imprensa.


Percival participou da cobertura.
Foto: Fernando Araújo / Arquivo DS
O que todos queriam era uma entrevista com a vítima. Dias depois, quando boa parte da imprensa já tinha perdido o interesse pelo caso, o pai do empresário atendeu os três repórteres que ainda faziam plantão no local. Eu, Carla Fiamini [Diário de Suzano] e Ricardo Gallo [Mogi News]. Era uma sexta-feira, tarde da noite. Ele disse que o filho não iria aparecer. Atendeu somente os repórteres e não permitiu a entrada de fotógrafos. Ninguém pôde gravar a entrevista. Logo na entrada, ele nos deu bombons e depois conversou conosco durante mais de uma hora em um salão no edifício onde morava. Era a primeira vez que um integrante da família falava sobre o caso. Os jornais deram grandes matérias no dia seguinte, mas como eu não pude gravar, tive de contar tudo o que acontecera aos ouvintes. A missão estava cumprida.

Muitos jornalistas daquela época não estão mais no Alto Tietê, alguns seguiram para São Paulo, outros nunca mais ouvi falar e uma minoria ainda ainda convive comigo na amizade e no companheirismo. Infelizmente, uma das colegas que estava conosco nessa pauta faleceu no ano passado, vítima da gripe H1N1, em Ferraz de Vasconcelos. 

Quase 11 anos se passaram e não me esqueço da minha primeira grande cobertura jornalistica e, por isso, não canso de contá-la. A ideia de relatar essa história aqui surgiu quando eu contava, mais uma vez, esse episódio, agora no começo de fevereiro. O ouvinte era um colega de trabalho. Após os detalhes do dia em que virei notícia, o colega me perguntou: "Douglas, por que você não conta isso no seu blog"? É verdade. Tá aí, Willian Almeida. Valeu pelo toque, cara.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Livros me trazem coisas boas

Eu era um vendedor de livros em uma loja no shopping de Suzano em 2002. Tinha quase 15 quilos a menos, cabelos a mais, não ostentava barriga, mas a garota de cabelos castanhos nem quis saber de mim. Era o novo funcionário do estabelecimento quando a vi pela primeira no corredor do centro de compras. A garota trabalhava como vendedora em uma loja de roupas femininas.

Eu havia me formado em jornalismo há dois anos. Fazia pequenos trabalhos na área [foca] e não conseguia emprego fixo. Frequentava a livraria no shopping quase todos os dias e acabei pedindo trabalho por lá. Fui admitido. Na primeira semana de serviço li "Quem Mexeu no Meu Queijo" em poucas horas, em pé. Livros me dão sorte e me trazem coisas boas. Por outro lado, continuava insistindo em entrar na área jornalística. 

Isso acabou acontecendo depois de um tempo, quando uma jornalista foi ao estabelecimento. Falei sobre minha formação e a vontade de trabalhar na área jornalística. Me tornei repórter na dio Metropolitana. Valeu Marilei.

Pois bem, voltemos no tempo. A menina de cabelos castanhos que trabalhava ali no shopping continuava me despertando a atenção. Ela passava e eu, de polo amarela e calça preta [uniforme da loja], olhava seu caminhar através da vitrine. Ela voltava e eu continuava com os olhos nos seus passos. Não sei, mas o jeito dela ia me cativando. Ensaiei uma aproximação e certo dia tomei coragem. Não tive sucesso e levei um fora. Ok, depois disso, esqueci. Desencanei.

O tempo passou, sai do shopping, entrei na rádio, tive outros relacionamentos e outros empregos. O Brasil foi penta, Lula se elegeu e reelegeu, perdi cabelo, perdi namoradas e entrei no Orkut. Surpresa: foi nesse antigo site de relacionamento que reencontrei a menina do shopping, por acaso, no final de janeiro de 2009.

O mais estranho é que durante 7 anos [2002 - 2009], mesmo morando na mesma cidade, eu nunca me encontrei com a garota de cabelos castanhos. A foto do Orkut mostrava que a menina se tornou loira, mas o rostinho e os olhos eram os mesmos. Adicionei e puxei papo. O feedback foi rápido e ela disse que se lembrava de mim. Conversamos muito e cada vez mais tínhamos vontade de nos falar. 

Foram inúmeras mensagens de celular. E mesmo sendo de operadoras diferentes o fluxo não parava. Não existia whatsapp e o facebook ainda era verde. Nos encontramos em um domingo. Ela de jeans e sapato scarpin. Eu de camiseta preta e bermuda. A menina de cabelos castanhos fez uma revelação: disse que na época em que trabalhávamos no shopping, ela me via como um nerd. Respondi dizendo que ela continuava bonita. Conversamos muito e, praticamente, começamos a namorar no mesmo dia.

Desde estão nunca mais nos separamos. Nos falamos todos os dias durante estes 5 anos. Aprendemos muito um com o outro e juntos continuamos evoluindo
São anos de muito amor e carinho, completados dia 8 de fevereiro de 2014. 
Esta é uma história de livro, literalmente. E uma pequena homenagem a uma pessoa que me faz enxergar coisas novas todos os dias. A eterna menina de cabelos castanhos. Você, Carol, é a prova que os livros sempre me trazem coisas boas.Te amo, sempre. 
A primeira foto que tiramos juntos.           


segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Veja como parar de fumar. [Eu parei]

Estava diante da janela da sala com a cortina e vidros abertos para fazer a fumaça escapar. Passava das 23h quando dei uma longa tragada no cigarro de filtro branco. Pensava que no dia seguinte tudo seria diferente. Esse foi o último cigarro que fumei, no final da noite do dia 25 de janeiro de 2010. Desde então, nem mais uma tragada. São 4 anos sem a substância.

Fui um adolescente que nunca dei muita bola para esse negócio de cigarro. Meu pai fumava [ex-fumante]. Meu irmão mais novo dava umas tragadas por aí [ele ainda fuma], mas eu não ligava muito. Porém, no final dos anos 90, encasquetei que queria aprender a tragar. 

Já tinha uns 18. Queria saber soltar a fumaça e passei rápido por esse exercício fácil. No começo dá até tontura. Fiquei nessa de fumar de vez em quanto uns 6 meses. Entrei na faculdade e antes de aprender Metodologia Científica já era um fumante. No ano seguinte estava fumando quase um maço por dia. 

Quem fuma sabe. O falso bem estar inexplicável não vem apenas do ato de tragar aquela fumaça tóxica. O cigarro é o companheiro de mentira em horas felizes, tristes e agitadas. Se espera alguém: fuma. Se a pessoa chega: fuma. Se termina um trabalho: fuma. Se vai começar um trabalho: fuma de novo. O ato de fumar se envolve na rotina do viciado. Por isso que é realmente extremamente difícil abandonar isso. Você sente a falta da droga na corrente sanguínea e também sente a falta da companhia do cigarro nas coisas que fazia com ele. [só fumantes e ex-fumantes entenderão 100% essa passagem do texto]. E se eu ainda fumasse, talvez daria uma pausa agora para acender um.

Não sou chato ex-fumante, daqueles que gostam de palestrar diante dos que ainda usam a substância. Quem quer fumar, fume. Falo que consegui parar com muito prazer, mas somente se houver um momento oportuno. Não ligo para o cheiro da fumaça. Ela nunca me incomodou e, mesmo depois da separação, não ligo de estar ao lado das pessoas que fumam. 

Pois bem. Depois de anos ao lado do cigarro a vontade de parar começou a piscar no painel. Em 2003, cheguei a ficar 6 meses sem fumar, mas acabei voltando. É que não adianta os outros quererem. Quem toma é decisão é quem fuma. No final de 2009 fiz um check up e o médico disse: "Douglas, você está ótimo, não tem nada. Vai esperar ter alguma complicação para largar o cigarro?". Aquela frase martelou na minha cabeça de forma cadenciada durante um tempo. Como uma bate estaca da construção civil.

Parar de fumar não é como deixar de comer algo que você gosta. É diferente de não ir mais naquele bar que você ama. Não é igual desistir de um curso que sempre quis fazer. Nada disso. Abandonar o vício é deixar de consumir algo que o corpo pede de forma gritada. 

Mas é possível parar de fumar. Claro que é. Depois que saí da sala do médico a ideia de parar com a droga ficou na minha cabeça. Só precisava elaborar um plano para isso. Era meados de setembro de 2009 começava a me preparar e fixei uma data. Pensei comigo: fumarei até o dia 25 de janeiro do ano que vem. Depois disso, não mais. E sabia que esse dia chegaria. Depois do Natal e Ano Novo logo veio a noite do dia prometido. E lá estava: eu e ele. Fumei o último cigarro como se estivesse despedindo de alguém que não queria mais ver. [vai embora, será melhor para mim]. Essa era a pegada. 

No dia seguinte as pessoas logo perceberam que eu não mais mantinha mais entre os dedos aquele pequeno cilindro de papel nocivo. Os dois meses seguintes foram difíceis. Muito difícil. A abstinência dói. Mas é como atravessar uma turbulência, uma tempestade, uma noite escura... uma hora acaba. E quando passa você sente uma satisfação imensurável.

Um ex-fumante sempre lembrará que já foi fumante, mas dá pra conviver com isso numa boa. Dá vontade as vezes, mas é algo fácil de lidar. Como se fosse vontade de comer lasanha. Se não tem, não come. Dá para viver sem lasanha. 

A pior parte é que engordamos. O alimento fica mais gostoso. No entanto, muitas vezes mantemos alguns rituais da época da droga. Por exemplo, trabalho com alguns fumantes e ainda frequento o fumódromo para papear e descontrair. Eles fumam e eu como uma banana.  

Depois de atravessar a dolorosa separação até parece que foi fácil. Tomo café e cerveja e nem lembro que ele existe. Mas não foi fácil. Por isso sempre digo aos mais novos e as pessoas que estão nessa de aprender a tragar, como eu fiz um dia. O caminho mais fácil para largar o cigarro é nunca fumar. Estou livre há 4 anos. 

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

O fenômeno La La La Dog

Era uma terça-feira. Minhas férias estavam chegando ao fim e resolvi ligar o computador para acessar o portal de notícias onde trabalho. Li a matéria que ganhava destaque na página naquela manhã do dia 29 de outubro. O desenho do cão colorido me despertou interesse e a história do artista me fascinou logo de cara. 

Já tinha visto a arte do rapaz em alguns muros de Mogi das Cruzes no embaralhado meio urbano, mas não botei muito reparo. Porém, lendo o texto, percebi que aquilo tinha uma razão. O amor verdadeiro entre o cão e seu dono. Havia acabado de ser apresentado ao La La La Dog. Uma manifestação artística em homenagem à cachorra [falecida] do grafiteiro. A dogue alemã, Dalila.

Basta dar umas voltas por Mogi das Cruzes com atenção voltada aos muros e fachadas abandonadas. Não é difícil de encontrar. Trata-se de um desenho feito com tinta spray. A figura é de um cachorro de porte grande. São várias as cores. Tem La La La boiadeiro, prateado, Papai Noel, azul e rosa, verde, preto...

E o cão foi adquirindo popularidade. Foi ganhando admiração não só de crianças, mas de muitos adultos, inclusive eu. Em Mogi existe um grupo de amigos que sai à “caça” dos La La La Dogs. O objetivo é fotografar a arte urbana. Melhor ainda é sair na foto ao lado do cão mais famoso de Mogi. E além da região, o artista já deixou sua marca em São Paulo, litoral paulista e até em Porto Alegre.

No dia 25 de dezembro me surpreendi com uma ilustração em Suzano, talvez a primeira marca dele na cidade. Na cor azul, em uma porta de ferro... lá estava a arte. Fotografei e contei a história para a minha noiva que também ficou fascinada. O imóvel estava para alugar e pertence a uma pessoa conhecida da minha família. O desenho não teria agradado num primeiro momento, mas ao tomar conhecimento da história, La La La Dog ganhou mais fãs suzanenses.

E a fama do cão colorido só faz aumentar. A primeira exposição foi marcada no shopping de Mogi das Cruzes. Conversei com o artista Jaum por telefone [não o conheço pessoalmente] para uma matéria jornalística. Sujeito calmo, de fala tranquila e feliz com as coisas boas que a arte lhe proporcionou.

A imagem da cachorra Dalila nos muros velhos de Mogi das Cruzes reflete um pouco do amor que muitos sentem por seus animais de estimação. Eu estou nesse grupo de apaixonado por cães. São os seres mais puros e verdadeiros que conheço [característica rara entre os humanos]. E é por isso que a Dalila merece toda essa exaltação espontânea que vem das ruas. E o Jaum, artista que passei a admirar, tem todo o meu respeito.

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Sem saída

Meu carro não tem ar condicionado. Então conto apenas com a abertura das janelas. O ar circula enquanto o veículo desliza sobre o escaldante asfalto dos dias quentes deste janeirão de 2014. Sabe aquele horizonte de piche derretido? A máquina sofre, o ponteiro da temperatura logo alcança o máximo e a ventoinha se desdobra. 

Depois do almoço os termômetros tinham acabado de passar pelos 30. O trânsito seguia normal e, no céu, as primeiras cumulus nimbos já estavam estacionadas. "Pode ser que chova mais tarde", pensei. 

Descobri que dirigir com a janela aberta é prejudicial à saúde. Meu braço esquerdo não parece ser da mesma pessoa que ostenta o membro superior direito. Um é quase negro. O outro moreno claro. O braço canhoto é alvo constante dos raios ultravioleta, pensei. Protetor solar é a solução. E quando esqueço dirijo com o braço ligeiramente recolhido. Neste dia eu esqueci e somente lembrei quando o trânsito já estava parado há 5 minutos.

Trânsito parado pode ser reflexo de semáforo demorado ou até excesso de veículos à frente. Se o tráfego continua estagnado por mais de 5 minutos, na minha opinião, é sinal de que algo pode ter acontecido. Estar na inércia por mais de 10 é ter certeza que existe algo de errado.

Ficar estacionado no meio da pista em uma fila de carros aguça a curiosidade. É normal pensar no que pode ter ocorrido lá na frente. Acidente? é sempre a primeira opção que estala na mente. Só que uma caminhonete à minha frente conseguiu subtrair meu campo de visão do horizonte de automóveis.

O sol ainda era forte, mas outras nuvens de chuva faziam companhia às primeiras cumulus. Eu estava na faixa da esquerda e do meu lado direito chegou um caminhão pesado que começou a expelir fumaça preta na minha direção. Fechei a janela direita. O calor aumentou em questão de segundos. Pensei: "Tenho que sair daqui", imediatamente.

Já estava parado no mesmo lugar por mais de 15 minutos Alguns motoristas desligaram o motor. O caminhão não. Pois bem, dei seta à direita, consegui sair da pista e entrar no bairro. A impressão é que todos os carros tiveram a mesma ideia. Sendo assim: bairro e a avenida engarrafados. O tempo fechou e a chuva pesada era questão de minutos. 


Pois bem. Todos os carros que optaram por cortar caminho pelo bairro teriam de voltar para a pista. Um rio com nome de cidade, logo à frente, era o limite. Resultado: tudo travado. Pista, bairro e acessos à pista. Parei em um posto de combustíveis e desci para comprar uma água. A chuva veio forte e pesada. Eu já estava atrasado. 

Tudo virou um caos. Consegui cortar caminho pelo bairro e pulei uns dois quilômetros de engarrafamento pelos trepidantes paralelepípedos. No entanto, tinha de voltar para o caminho de origem. Após mais de 10 minutos aguardando para entrar na pista, consegui. A chuva refrescou o ambiente e a impressão era de que estava prestes a descobrir o causador do grande engarrafamento.

Ingressei em um trecho de subida exigindo bastante da embreagem, no famoso anda e pára, e logo vi o que tinha bloqueado o único corredor de veículos que liga duas cidades com seus quase um milhão de habitantes. Quem vive em Suzano e trabalha em Mogi, como eu, ou vice-versa, conta apenas com um único caminho.  

A famosa, velha e saturada SP-66. Uma pista que há décadas serve de ligação entre as duas cidades. Desde quando se ter um carro era o luxo do luxo.

Minha opinião e de boa parte de quem depende da estrada é uma só: é preciso mais um caminho, pelo menos, para dar conta da alta demanda. Não precisa ser um especialista em mobilidade urbana ou um gênio na área do transporte para enxergar isso. Os anos passaram, projetos são apresentados, mas na prática a coisa não anda. 

E mais uma vez, um caminhão quebrado na altura da Coca foi capaz de atrasar a vida de centenas de pessoas na tarde da última segunda-feira, dia 13 de janeiro. A SP-66 continua sendo a única ligação entre duas cidades. Quem vai dar jeito nisso? Quando? 

Dá próxima vez acho mais fácil comprar um carro com ar condicionado. Com o vidro fechado, a fumaça preta do caminhão não vem direto na minha cara.